
Re:Build, criadora da Slate Auto, capta US$ 2,1 bi para desafiar Shenzhen
A aceleradora de manufatura americana Re:Build Manufacturing levantou US$ 2,1 bilhões liderados por General Catalyst e JPMorganChase. A empresa, que já incubou a fabricante de picapes elétricas Slate Auto, se descreve como 'a resposta dos EUA a Shenzhen'.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 2,1 bilhões para tentar reindustrializar os EUA
A Re:Build Manufacturing, aceleradora de manufatura americana que ajuda empresas industriais a escalar produção e já incubou a fabricante de picapes elétricas Slate Auto, acaba de levantar US$ 2,1 bilhões em uma nova rodada de investimento. A captação foi liderada pela gestora de venture capital General Catalyst e pelo braço de investimentos estratégicos do JPMorganChase, o Strategic Investment Group — dois nomes de peso que raramente apostam juntos em uma única tese.
O valor chama atenção porque poucas empresas de manufatura industrial nos EUA conseguem captar nessa escala fora do universo de defesa ou semicondutores. Segundo a própria empresa, a equipe fundadora da Re:Build já levantou mais de US$ 4 bilhões desde a fundação, em 2020 — indício de que investidores institucionais estão dispostos a financiar apostas de longo prazo em "hard tech" doméstico, mesmo com ciclos de retorno mais lentos que os do software.
O que é a Re:Build e por que ela se compara a Shenzhen
A Re:Build, com sede em Massachusetts, opera em dois modelos: faz parcerias com empresas industriais para desenhar, projetar e fabricar produtos em escala — de aeroespacial a defesa — e também incuba startups em mercados consideradas críticos e carentes de fornecedores locais. A companhia se apresenta como "a resposta dos EUA a Shenzhen", referência ao polo manufatureiro chinês que concentra boa parte da cadeia de produção eletrônica e de hardware do mundo.
Hoje a rede de empresas da Re:Build emprega mais de 2,1 mil pessoas e opera cerca de 2,4 milhões de pés quadrados de capacidade produtiva nos EUA. O dinheiro novo deve ir para ampliar essa capacidade e lançar novas startups industriais em cinco frentes: aeroespacial e defesa, eletrificação, saúde, energia/meio ambiente e robótica/automação.
Slate Auto, a aposta mais visível do portfólio
Entre as empresas nascidas dentro da Re:Build está a Slate Auto, startup de picapes elétricas criada em 2023 por Jeff Wilke — ex-executivo de operações da Amazon — e Miles Arnone, CEO da própria Re:Build. A Slate já captou cerca de US$ 1,4 bilhão sozinha, incluindo cheque do family office de Jeff Bezos, e desenvolve um veículo elétrico barato e altamente customizável, apostando no apetite por carros simples em um mercado dominado por EVs caros.
Quem ganha e quem perde
No curto prazo, quem ganha é a própria tese de reindustrialização americana: General Catalyst e JPMorgan validam publicamente a ideia de que manufatura doméstica pode ser investível em escala de bilhões, abrindo caminho para outros fundos seguirem o dinheiro. A Re:Build ganha munição para competir por contratos de defesa e aeroespacial que exigem capacidade comprovada. Quem perde, por ora, é a concorrência menor e mal capitalizada do setor, que vai disputar mão de obra especializada e fornecedores com uma rede que agora tem bilhões de musculatura financeira — sem ainda ter entregado, em escala, o produto que justifique a comparação com Shenzhen.