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Ciência26 de out. de 2026, 23:09

Reator que simboliza volta da energia nuclear nos EUA tropeça em falhas de segurança

A usina Palisades, em Michigan, é a aposta da Holtec para provar que reatores nucleares desativados podem voltar a funcionar. Mas um contratante caiu na cavidade do reator e um conjunto de varetas de combustível ficou inclinado dentro do núcleo.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Pra escala humana: imagine mergulhar, sem querer, numa piscina de 12 metros de profundidade que fica em cima do núcleo de um reator nuclear — e ainda engolir um gole da água dali. Foi o que aconteceu com um contratante da usina Palisades, em Michigan, em outubro de 2025. Esse é o tipo de episódio que está colocando em xeque o projeto mais simbólico da chamada "volta" da energia nuclear americana.

O que é a Palisades e por que ela importa

A Palisades Nuclear Plant é operada pela Holtec International, empresa que lidera a tentativa inédita de reativar usinas nucleares já desativadas nos Estados Unidos — um movimento puxado pela demanda crescente de energia para data centers de IA. A usina havia sido desligada e, segundo reportagens que acompanham o processo, retornou ao status operacional em agosto de 2025, tornando-se a primeira planta decomissionada do país a voltar a gerar energia. A Holtec tem compromisso contratual para operar comercialmente até 1º de março de 2027.

O que está confirmado

Dois incidentes documentados pela Nuclear Regulatory Commission (NRC) acenderam o alerta. Em 22 de outubro de 2025, por volta das 9h30, um contratante caiu na cavidade do reator — que estava preenchida com água — durante trabalhos de carregamento de combustível. Ele usava equipamento de proteção obrigatório, incluindo colete salva-vidas, mas, segundo o relatório da NRC, "ingeriu uma quantidade de água da cavidade". O órgão detectou 300 contagens por minuto no cabelo do trabalhador, que foi descontaminado e levado para avaliação médica fora da usina; a Holtec afirmou que os exames "deverão confirmar exposição bem abaixo dos limites regulatórios" e que o funcionário sofreu apenas lesões menores, retornando ao trabalho depois.

Já em 30 de agosto de 2026, durante o processo de recarga, um conjunto de varetas de combustível se soltou da máquina de reabastecimento e tombou, ficando inclinado a 30 graus dentro do vaso do reator — com a placa superior apoiada contra a estrutura do núcleo. Não houve perda de integridade das varetas nem impacto em outros conjuntos, mas a remoção segura do equipamento exigiu uma emenda especial de licença, concedida pela NRC em 13 de outubro de 2026 sob caráter de urgência. A Holtec só concluiu a retirada, com um recipiente de transferência personalizado de cerca de 49 mil libras, em outubro de 2026, chamando a operação de "realizada com segurança e sem erros".

O que é hipótese ou crítica, não fato apurado

Moradores da região e organizações ambientais questionaram se o método de remoção do conjunto tombado era testado o suficiente, e a NRC já havia registrado que funcionários dos setores de cadeia de suprimentos e controle de qualidade da usina relataram hesitação em levar problemas de segurança a gestores ou ao próprio órgão regulador — um sinal de clima interno, não uma falha técnica comprovada. Edwin Lyman, da Union of Concerned Scientists, resumiu a preocupação central: o risco de que, na pressa de ligar reatores rapidamente para abastecer data centers, atalhos estejam sendo tomados na segurança.

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