
Recursive lança Flint, modelo de codificação para laptop feito por IA
A startup Recursive lançou o Flint, modelo gratuito de codificação que roda em laptops comuns e foi construído em boa parte pelo sistema automatizado de pesquisa da própria empresa. É um primeiro teste de IA que ajuda a melhorar a si mesma.
Por Marina Sato · Repórter de IA
Um modelo de 40 bilhões de parâmetros que roda em laptop
A Recursive, startup de inteligência artificial fundada em 2025 por Richard Socher e outros ex-pesquisadores do DeepMind, OpenAI, Uber AI e Salesforce, lançou nesta quarta-feira (21) o Flint, seu primeiro modelo de codificação. O destaque não é só a performance, mas como ele foi feito: segundo a empresa, quase todas as etapas do desenvolvimento — arquitetura, método de treinamento e ajustes de código para chips específicos — vieram de ideias geradas e testadas pelo próprio sistema automatizado de pesquisa da Recursive, batizado de Eureka Machine.
O Flint é um modelo mixture-of-experts com 40 bilhões de parâmetros no total, mas ativa apenas 2,5 bilhões por tarefa, o que permite rodar em laptops comuns sem depender de servidores na nuvem. A empresa diz que ele atinge mais de 125 tokens por segundo em um MacBook Pro com chip M4 Pro e mais de 150 tokens por segundo em uma RTX Spark de 64GB — até duas vezes mais rápido que modelos comparáveis em contextos curtos, segundo a Recursive.
Foto: reprodução/officechai.com
Como a IA ajudou a construir a própria IA
A Eureka Machine funciona propondo ideias, escrevendo o código para testá-las, avaliando os resultados e decidindo os próximos passos, rodando muitos experimentos em paralelo. Segundo a Recursive, o sistema foi responsável por avanços como uma arquitetura mais esparsa e um treinamento de baixa precisão numérica que reduziu o tamanho do Flint sem perda relevante de qualidade. O modelo foi construído do zero em menos de quatro meses por uma equipe pequena.
O Flint está disponível gratuitamente no Hugging Face sob licença Apache 2.0, que permite uso e modificação livres, inclusive comercial. A empresa afirma que o modelo lidera sua categoria de tamanho em benchmarks como SWE-Bench Verified, SWE-Bench Pro e Terminal-Bench, e funciona totalmente offline. Ainda assim, a própria Recursive reconhece que o Flint exige mais orientação do usuário do que assistentes pagos maiores, recomendando dividir tarefas complexas em etapas menores.
Uma startup que saiu da invisibilidade com bilhões
A Recursive só se tornou pública em maio de 2026, quando revelou ter levantado mais de US$ 650 milhões em uma rodada avaliada em US$ 4,65 bilhões, com investidores como GV, Nvidia e AMD Ventures. Socher, ex-cientista-chefe da Salesforce e fundador da MetaMind e da You.com, lidera a empresa com a missão declarada de construir "IA que pode melhorar a si mesma".
O lançamento do Flint acontece poucos dias depois de a Meta lançar o Muse Spark Open, um modelo de código aberto muito maior, de 816 bilhões de parâmetros, que exige pelo menos 1 terabyte de memória para rodar — um contraste direto com a proposta de portabilidade do Flint.
Fica a pergunta que a Recursive ainda não respondeu publicamente com detalhes técnicos completos: quanto da autonomia atribuída à Eureka Machine foi supervisão humana indireta e quanto foi de fato decisão do sistema sem intervenção da equipe.