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IACiência11 de ago. de 2026, 00:15

Revisão por pares está afogada: ciência aguenta a onda de papéis de IA?

Submissões acadêmicas dispararam desde o ChatGPT e boa parte das revisões já sai de máquinas, não de humanos. O sistema que sustenta a credibilidade da ciência está no limite.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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A fila que não para de crescer

Imagine um cartório com o mesmo número de funcionários de sempre, mas de repente todo mundo da cidade decide reconhecer firma no mesmo mês. É mais ou menos isso que está acontecendo com a revisão por pares, o processo que decide se um estudo científico é bom o suficiente para ser publicado. Segundo a força-tarefa de IA da revista Organization Science, uma das principais publicações de administração do mundo, as submissões de artigos cresceram 42% desde o lançamento do ChatGPT no fim de 2022 — quase o dobro do salto registrado durante a pandemia de covid-19, quando todo mundo virou pesquisador de fim de semana.

O detalhe curioso, e um tanto irônico: as submissões escritas só por humanos, sem ajuda de IA, na verdade caíram. Ou seja, quem está inundando a caixa de entrada dos editores é, cada vez mais, gente com um assistente de inteligência artificial no cotovelo.

Maioria dos artigos já tem "ajudinha" da máquina

Pela primeira vez em 2026, a maioria dos manuscritos enviados à Organization Science mostra algum grau de envolvimento de IA na escrita. E a categoria que mais cresce é a dos textos com 70% ou mais de conteúdo gerado por máquina — ou seja, não é só um Ctrl+C Ctrl+V de correção gramatical, é o miolo do argumento mesmo.

O problema é que texto feito por IA tende a sair mais cheio de jargão e mais difícil de ler, segundo uma editora sênior da revista, resumindo o paradoxo em uma frase que vale como aula: "as pessoas pensam enquanto escrevem, então se você não escreve, não pensa tão profundamente sobre aquilo". Em bom português: delegar a redação para a IA é como pedir para o motorista de aplicativo dirigir enquanto você dorme no banco de trás — você chega ao destino, mas não aprendeu o caminho.

Quando o revisor também terceiriza o trabalho

A bola de neve não para nos autores. Mais de 30% das revisões feitas por pareceristas na Organization Science hoje mostram uso detectável de IA — um número que partiu de praticamente zero antes do ChatGPT. E o achado mais preocupante é que essas revisões feitas (ou muito ajudadas) por IA praticamente não pesam nas decisões editoriais, ao contrário do parecer humano tradicional. É como contratar um segurança para revistar bolsas na entrada de um show e descobrir que ele está só balançando a cabeça sem realmente olhar.

O fenômeno também aparece em conferências de tecnologia: pesquisas mostraram que uma fatia relevante das revisões em grandes eventos de inteligência artificial foi identificada como inteiramente gerada por IA, evidência de que o problema não é exclusivo das ciências sociais.

Dois lados da mesma moeda

Nem tudo é alarme. Editores da própria Organization Science já testam usar IA a favor do processo: como uma triagem automática, batendo o olho na legibilidade, na densidade de jargão e na complexidade das frases antes que um humano perca tempo lendo. A ideia não é substituir o revisor, mas dar a ele uma lupa melhor — desde que humanos continuem no comando da decisão final.

O impasse resume o dilema da ciência na era da IA: a mesma ferramenta que está afogando os editores em submissões de qualidade duvidosa pode ser a bóia que ajuda a mantê-los à tona. A pergunta que fica é se as revistas vão conseguir remar rápido o suficiente antes que a confiança do público na ciência revisada por pares afunde junto com a pilha de papéis não lidos.

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