
Revolta contra data centers de IA ameaça reeleição de Susan Collins no Senado
No Maine, a disputa pelo Senado dos EUA virou plebiscito sobre data centers de inteligência artificial, com a senadora Susan Collins pressionada por eleitores preocupados com energia e água. O caso pode pesar no controle do Senado americano.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Quando o data center chega mais perto do que a conta de luz
Pensa assim: durante anos, o debate sobre inteligência artificial nos Estados Unidos foi uma discussão de laboratório — modelos, chips, bilhões investidos em algo distante do dia a dia. Pois no Maine, esse debate virou vizinho de porta. E vizinho de porta, como todo brasileiro sabe, é outra categoria de problema.
É o que está acontecendo na disputa pela cadeira de senador do Maine, segundo reportagem do The Verge. A senadora Susan Collins — republicana pelo Maine, hoje presidente do influente Comitê de Apropriações do Senado americano — enfrenta o democrata Troy Jackson, ex-presidente do Senado estadual, numa corrida que pode definir qual partido controla o Senado dos EUA. E o tema que mais tem pegado fogo entre os eleitores não é imigração nem guerra: são os data centers de inteligência artificial.
A ira que vira voto
Segundo o Verge, 76% dos moradores do Maine se opõem à instalação de data centers em suas comunidades, e 58% se opõem "com firmeza". Não é pouca coisa. Durante o debate final das eleições de meio de mandato, uma manifestante interrompeu Collins para gritar que os data centers estão "destruindo" o clima e "envenenando" a água — e a senadora reagiu acusando a campanha de Jackson de ter "plantado" a pessoa na platéia. Jackson negou conhecer a manifestante.
O receio por trás da revolta é concreto: data centers de IA consomem volumes enormes de eletricidade e água para refrigeração, o que pode pressionar as contas de luz e a reserva hídrica — tudo isso para gerar, segundo levantamento citado na apuração, apenas entre 100 e 200 empregos num condado que recebe sua primeira instalação de grande porte. Para comparar, a tradicional indústria madeireira do Maine gerou US$ 8,3 bilhões em 2024 sozinha.
Dois lados, uma linha tênue
Aqui vale "traduzir" as posições, porque nenhum dos dois candidatos quer parecer contra o progresso nem contra o eleitor. Collins tenta andar na corda bamba: defende que cada projeto seja avaliado caso a caso, elogiou propostas em antigos sítios industriais — onde já existe estrutura de hidroenergia — e votou a favor do Ratepayer Protection Act, lei pensada para proteger o consumidor de aumentos na conta de luz causados por essa demanda extra. Jackson vai mais longe: prometeu regulamentar os data centers já nos primeiros 100 dias de mandato, caso eleito, e exigir que as próprias empresas desenvolvedoras construam suas fontes de energia, em vez de sobrecarregar a rede pública.
O dinheiro também fala
A reportagem do Verge mostra que essa não é só uma disputa de ideias. Collins recebeu US$ 325.644 em doações de financiadores ligados a IA e criptomoedas, e seu patrimônio pessoal tem entre US$ 300 mil e US$ 800 mil investidos no boom de data centers. Do lado do gasto de campanha, a corrida no Maine deve se tornar a mais cara per capita da história do Senado dos EUA, com projeção de US$ 81 milhões em gastos democratas e US$ 114 milhões em gastos republicanos — incluindo US$ 158 milhões doados por Elon Musk ao Republican Senate Leadership Fund e US$ 2 milhões do financista Stephen Schwarzman a um PAC favorável a Collins.
Por que isso importa fora do Maine
O caso do Maine funciona como um termômetro nacional: pesquisas da Gallup mostram que 6 de cada 10 americanos já apoiam limitar a expansão de novos data centers. Se o tema decidir uma eleição que define o controle do Senado, outros estados — e a própria indústria de IA — vão prestar atenção ao que acontece no Maine.