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Ciência16 de out. de 2026, 09:40

Rewilding com aves marinhas e corais pode salvar atóis da subida do mar

Estudo com 28 ilhas no Índico e no Pacífico mostra que remover ratos invasivos e restaurar aves marinhas e plantas nativas pode dobrar o crescimento de recifes de coral, ajudando atóis a acompanhar a elevação do nível do mar até 2100.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: 700 mil pessoas vivem em atóis do Indo-Pacífico que mal ficam acima da linha d'água, e a maré só sobe

Imagine uma ilha tão baixa que a diferença entre ficar seca e ficar submersa é medida em poucos metros de areia. É assim que vivem mais de 700 mil pessoas em atóis de coral espalhados pelo Oceano Índico e pelo Pacífico — territórios formados inteiramente por sedimento de recife empilhado sobre a água, sem rocha para sustentá-los. Um estudo publicado nesta semana na revista científica Science Advances (publicação da American Association for the Advancement of Science, uma das mais tradicionais em ciência no mundo) sugere que devolver esses ecossistemas ao estado selvagem pode ser a diferença entre essas ilhas acompanharem a subida do mar ou desaparecerem.

O que foi confirmado

Uma equipe internacional liderada por Nick Graham, da Universidade de Lancaster (no Reino Unido), com participação de Casey Benkwitt, da ONG ambiental The Nature Conservancy, e Sebastian Steibl, da Universidade de Auckland (na Nova Zelândia), analisou dados ecológicos de 28 ilhas de atol nas Seychelles, no Arquipélago de Chagos e em Tetiaroa, na Polinésia Francesa.

Os números: recifes de lagoa ao redor de ilhas livres de ratos invasivos — e por isso com populações robustas de aves marinhas — cresceram 1,8 vez mais rápido do que recifes de ilhas infestadas por roedores. Nos recifes voltados para o oceano aberto, a diferença foi ainda maior: crescimento 2,5 vezes mais rápido. A produção de sedimento também disparou, entre 2,3 e 2,8 vezes mais nos recifes beneficiados por guano de aves marinhas. Plantas nativas, por sua vez, mostraram redes de raízes finas 4,6 vezes mais extensas do que áreas com vegetação nativa escassa, o que ajuda a estabilizar o solo.

O mecanismo por trás disso é uma cadeia ecológica: aves marinhas buscam alimento no oceano aberto e trazem nutrientes de volta para os atóis na forma de guano, que fertiliza plantas e corais. Peixes-papagaio raspam o coral morto e excretam partículas do tamanho de grãos de areia — material bruto que forma praias e eleva o terreno. Plantas nativas, com raízes mais profundas que as de coqueiros plantados em monocultura, seguram esse sedimento no lugar.

Segundo o estudo, a taxa de acreção (crescimento para cima) calculada para recifes de lagoa livres de ratos chega a cerca de 5,9 milímetros por ano — suficiente, segundo os autores, para acompanhar de perto a elevação do nível do mar projetada até 2100 num cenário de aquecimento global de 2°C.

O que ainda é hipótese

Os próprios pesquisadores fazem ressalvas importantes. Benkwitt afirma que o ritmo de crescimento seria suficiente para acompanhar de perto a elevação do nível do mar prevista até o final do século — mas isso vale para o cenário de 2°C, não para trajetórias de aquecimento mais extremas. A ecologista Hillary Young reforça que reduções rápidas nas emissões de gases de efeito estufa permanecem essenciais à viabilidade de longo prazo desses sistemas. Ou seja: rewilding ajuda, mas não substitui o corte de emissões. Também não está demonstrado ainda que os resultados observados nessas 28 ilhas-piloto se repliquem na mesma magnitude em outros atóis habitados, com infraestrutura humana já instalada.

Para Graham, atóis não são paisagens estáticas condenadas à extinção, mas sistemas ativamente naturais que podem mudar e se adaptar a suas condições ambientais — desde que se devolva a eles os bichos e plantas que os fizeram crescer até aqui.

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