
RFK Jr. diz que IA valida sua visão anti-vacina; testes mostram o contrário
Robert F. Kennedy Jr. afirmou que chatbots de IA confirmam seu ceticismo sobre vacinas e libertariam o público da 'tirania médica'. Testes com o chatbot oficial do governo dos EUA mostraram o oposto: a IA evitou validar a posição dele e até citou autoridades de saúde que discordam.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Um secretário de Saúde e sua nova testemunha favorita
Imagine trocar a opinião do seu médico pela de um aplicativo que às vezes inventa fontes. Foi mais ou menos essa a aposta que Robert F. Kennedy Jr. — secretário de Saúde dos Estados Unidos e crítico histórico das vacinas, hoje à frente do órgão que regula a saúde pública americana — fez publicamente. Em um bate-papo com o vice-presidente JD Vance para encerrar a cúpula Make America Healthy Again (MAHA), no fim de semana, Kennedy declarou que a inteligência artificial tem o poder de "nos libertar da tirania médica" e prometeu que "nunca mais seremos dominados por autoridades que nos dizem: confiem nos especialistas".
Segundo ele, a IA já ofereceria uma "segunda opinião muito mais bem informada do que qualquer médico do país". Kennedy foi além e deu um exemplo prático de seu argumento: se alguém afirmar que uma vacina previne transmissão e infecção, disse ele, "a IA pode dizer que na verdade não é bem assim". Ele ainda citou uma conversa com Sam Altman, CEO da OpenAI, que teria dito que hoje seria "má prática médica" fazer um diagnóstico sem consultar um sistema de IA.
A promessa e o teste da realidade
Aqui mora a primeira metade do debate: a IA pode, de fato, democratizar acesso à informação médica, ajudando pacientes a entender exames, bulas e diagnósticos complexos sem precisar decifrar jargão técnico sozinhos. É a mesma lógica de ter um dicionário de bolso — útil, mas que não substitui quem estudou o idioma a vida inteira.
O problema é quando se espera que o dicionário confirme uma opinião formada antes da consulta. Jornalistas que testaram sistemas de IA disponíveis ao público, incluindo o chatbot oficial do governo americano lançado na mesma época, não encontraram a validação que Kennedy descreveu. Em vez de reforçar dúvidas sobre a eficácia das vacinas, o chatbot reconheceu abertamente que páginas do próprio governo hoje se contradizem sobre o tema — resultado de uma alteração que Kennedy ordenou em novembro de 2025 numa página dos Centros de Controle de Doenças (CDC) — e chegou a citar autoridades de saúde estaduais que criticaram a mudança por destoar das evidências científicas.
Alucinação também é diagnóstico
Ou seja: a ferramenta não tomou partido de Kennedy, apontou a divergência interna do governo e ainda cometeu erros próprios, como ignorar uma decisão judicial que suspendia mudanças na política de vacina contra hepatite B. É o retrato exato do outro lado dessa história: modelos de IA podem "alucinar" — o termo técnico para quando inventam informações com aparência de verdade — e isso é particularmente perigoso em saúde, onde um erro de resposta pode custar mais do que uma citação inventada.
A American Medical Association reforçou o ponto: IA não substitui o julgamento de um médico. O episódio serve de lembrete prático — perguntar a um chatbot não é o mesmo que consultar quem examinou o paciente, e concordância entre humano e algoritmo nem sempre significa que ambos estão certos.