
Robótica tenta sair da sua "era GPT-2" rumo a um cérebro universal
Empresas de robótica correm para criar os equivalentes de um ChatGPT para corpos mecânicos, mas especialistas do setor admitem que a tecnologia ainda engatinha perto do que a IA de texto já alcançou.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Uma aula rápida de história da IA, aplicada a robôs
Quem acompanha o noticiário de tecnologia lembra que o GPT-2, lançado pela OpenAI antes do estrondo do ChatGPT, era curioso, mas pouco confiável — errava contexto, repetia frases, não servia para muita coisa séria. Pois é essa mesma fase, segundo Harry Mellsop, fundador da startup Antioch, que a robótica está vivendo agora. Em outras palavras: os robôs já mostram lampejos de inteligência, mas ainda estão longe do salto de qualidade que transformou chatbots em ferramenta de uso diário.
O que é um "foundation model" para robôs?
Assim como os grandes modelos de linguagem aprendem lendo bilhões de textos, os chamados foundation models robóticos tentam aprender a partir de vídeos, sensores e simulações — um tipo de "experiência de mundo" que ensina o robô a pegar um copo, abrir uma porta ou desviar de um obstáculo sem que um programador precise codificar cada movimento manualmente. A startup Foxglove, por exemplo, lançou um produto construído sobre o Cosmos, modelo de código aberto da Nvidia.
Quem está na corrida
O time de players é variado: a chinesa Unitree Robotics, que chegou a valer US$ 66 bilhões em sua abertura de capital antes de perder metade do valor após problemas técnicos; a startup de humanoides Genesis AI, que captou US$ 105 milhões em rodada semente; a Wayve, que migra da direção autônoma para robôs humanoides; e a própria Tesla, com seu projeto Optimus.
Por que ainda não existe um "momento ChatGPT" para robôs
Aqui mora a divergência interessante do setor. Alex Kendall, CEO da Wayve, compara a manipulação robótica hoje à direção autônoma de cinco anos atrás — ou seja, seria questão de tempo e dados até um avanço parecido. Já Adrian Macneil, da Foxglove, é mais cético: para ele, simplesmente não haverá um "momento ChatGPT" para robótica, porque colocar uma máquina para funcionar de forma confiável no mundo físico real é ordens de grandeza mais difícil do que gerar um parágrafo de texto. Théophile Gervet, da Genesis AI, resume o desafio prático: nenhum cliente quer um robô generalista que acerta 80% das vezes — no mundo físico, o erro pode custar caro, literalmente.
O carro à frente dos bois?
Curiosamente, é nos carros autônomos que a tecnologia mais avançou, já que eles podem aprender observando milhões de motoristas humanos e lidam com um ambiente relativamente mais previsível que uma casa ou fábrica. Os robôs humanoides generalistas continuam presos aos laboratórios. Fica a pergunta que fica no ar: o avanço definitivo virá de carros sem motorista rodando em escala, ou de um robô que finalmente entenda um comando em português tão bem quanto um assistente de IA entende um e-mail?