
Ryde entra na Shared Micromobility Alliance para padronizar regras
Operadora nórdica de patinetes e bikes elétricas se junta à aliança que reúne cidades e empresas do setor para discutir regulação e boas práticas. A pergunta que fica: quem decide o que é 'regulação responsável'?
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Mais uma operadora na mesa das regras
A Ryde Technology, empresa nórdica de patinetes e bicicletas elétricas compartilhadas que opera nos países nórdicos e está expandindo para a Alemanha, anunciou sua entrada na Shared Micromobility Alliance (SMA). A aliança é mantida pelo Cities Today Institute e reúne operadores de micromobilidade e representantes de cidades em torno de um objetivo comum: evitar que cada município reinvente a roda — literalmente — ao regular patinetes e bikes compartilhadas.
Segundo o CEO da Ryde, Tobias Balchen, a ideia é ter "uma plataforma compartilhada e confiável onde operadores e cidades possam trocar conhecimento e trabalhar por padrões comuns, em vez de cada cidade e operador resolver os mesmos problemas sozinho". Na prática, isso significa discutir de forma coletiva temas como estacionamento, velocidade, dados compartilhados com prefeituras e critérios de fiscalização — hoje tratados de forma fragmentada, cidade por cidade.
O que a Ryde traz para a mesa
A empresa opera com um modelo totalmente interno (in-house), mantendo controle direto sobre treinamento de equipes, manutenção das frotas e operação de rua — sem terceirizar essas frentes, como fazem outras operadoras do setor. Em Oslo, a Ryde registrou 20 milhões de viagens em 2025, volume que a empresa diz equivaler a cerca de um terço do transportado pela rede de bondes da cidade no mesmo período. É um número que ajuda a dimensionar o quanto a micromobilidade já compete com o transporte público tradicional em algumas cidades europeias — mas que também deveria estar acompanhado de dados sobre acidentes, ocupação de calçadas e custos de fiscalização, informações que o anúncio não traz.
Balchen defende "regulação direcionada que resolva problemas específicos, em vez de restrições genéricas sobre número de veículos ou áreas de operação" — um discurso comum entre operadoras que preferem regras sob medida a limites fixos de frota, tema que segue controverso entre gestores públicos.
Por que isso importa para quem mora na cidade
Alianças como a SMA já contam com nomes como a sueca Voi Technology, que opera em mais de 100 cidades europeias. O ganho de escala é real: padrões comuns podem reduzir custos de adaptação para operadoras e dar às prefeituras menos experientes um repertório pronto de regras testadas alhures.
Mas vale a pergunta de sempre: quem senta à mesa por parte do cidadão? A aliança é formada por operadores e municípios — não há, pelo material divulgado, menção a conselhos de usuários, pedestres ou ciclistas tradicionais, que dividem o espaço público com os patinetes. Se a SMA vai mesmo influenciar regulação em várias cidades ao mesmo tempo, seria útil saber que critérios de transparência e prestação de contas acompanham esse processo — e não apenas o setor definindo, entre si, o que é "regulação responsável".