
Salmão de cativeiro perdeu metade do ômega-3 em uma década, diz estudo
Levantamento de 16 anos com quase 7 mil salmões mostra que a troca de ração marinha por ingredientes vegetais reduziu pela metade os níveis de ômega-3 do peixe mais consumido do mundo.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Uma porção de salmão de cativeiro hoje tem metade do ômega-3 que tinha em 2006. É a conclusão de um estudo de 16 anos do Instituto de Pesquisa Marinha da Noruega, referência mundial em aquicultura, que analisou quase 7 mil filés e mais de 900 amostras de ração entre 2006 e 2021.
O que é confirmado
O motivo está na dieta. Nos anos 1990, quase 90% da ração dada ao salmão de criação vinha de fontes marinhas — outros peixes e óleo de peixe. Em 2020, essa fatia já tinha caído para 22%, com mais de 60% da ração composta por ingredientes vegetais, como soja e canola. É essa mudança que explica a queda no ômega-3: o peixe reflete o que come, e passou a comer menos gordura de origem marinha. O estudo, publicado no Journal of Agriculture and Food Research, também aponta um lado positivo: o salmão de hoje é mais seguro, com menos contaminantes acumulados do que 15 anos atrás.
O que ainda é hipótese
Os pesquisadores não cravam o impacto real dessa mudança na saúde de quem come salmão — o que dá pra afirmar é que seria preciso comer o dobro da porção de 2006 para atingir a mesma quantidade de EPA e DHA, os dois ácidos graxos ômega-3 mais estudados. Também não há consenso sobre quanto da mudança na ração é reversível: voltar a usar mais óleo de peixe esbarra num problema ambiental, já que a pesca de pequenos peixes forrageiros opera perto do limite sustentável em várias regiões do planeta.
O que falta responder
O estudo não diz se a indústria pretende reformular a ração para recuperar parte do ômega-3 perdido, nem a que custo isso viria — ingredientes marinhos são mais caros e mais escassos que os vegetais que os substituíram. Por ora, os autores mantêm a recomendação: salmão de cativeiro segue sendo fonte relevante de proteína, vitamina D e selênio, só que já não é o mesmo peixe de vinte anos atrás.