
São Francisco mostra como reúso de água pode baratear infraestrutura
Cerca de 70 prédios da cidade americana já tratam e reaproveitam água no local, reduzindo a dependência de obras públicas caras.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O que São Francisco fez
Desde 2012, São Francisco tem uma ordenança — ampliada em 2021 — que obriga novos edifícios comerciais com mais de 100 mil pés quadrados (cerca de 9.300 m²), além de prédios residenciais e de uso misto, a instalar sistemas próprios de tratamento e reúso de água cinza e esgoto. Hoje são cerca de 70 edifícios com esse tipo de sistema instalado na cidade, fiscalizados por quatro órgãos municipais: a companhia de saneamento SFPUC, o departamento de saúde, o de obras públicas e o de inspeção de edificações.
Quanto isso economiza
O exemplo mais citado é o Salesforce Tower, arranha-céu que atende 76% de sua própria demanda de água com reúso no local. A Epic Cleantec, empresa especializada nesse tipo de sistema e uma das fornecedoras da tecnologia usada na cidade, opera projetos como o Chorus (recicla até 2,9 milhões de galões por ano) e o The Landing (até 1 milhão de galões), usados para descarga de vasos sanitários, torres de resfriamento e irrigação.
Por que a cidade escolheu esse caminho
Segundo Aaron Tartakovsky, cofundador e CEO da Epic Cleantec, São Francisco abandonou um plano de reúso centralizado porque seria caro demais "cavar ruas e instalar tubulação" nova pela cidade inteira — tratar a água prédio a prédio saiu mais barato que uma rede paralela. Para Taylor Nokhoudian, gestora de recursos hídricos da SFPUC, a ordenança é "muito única e a primeira do tipo", e dá aos prédios a "oportunidade de reimaginar como usam água".
Foto: reprodução/nbcbayarea.com
Outras cidades de olho
Austin, no Texas, segue caminho parecido com o programa piloto "Go Purple", que já reúne 36 projetos de reúso — a prefeitura liberou mais US$ 4 milhões em recursos para o programa recentemente. A agência ambiental dos EUA, a EPA, lançou em abril um plano de ação nacional sobre reúso de água, sinal de que o modelo pode se espalhar.
A pergunta que fica
Tartakovsky é direto sobre o cenário mais amplo: existe "um gap significativo entre o que se gasta e o que precisaria ser gasto" em infraestrutura de água nos Estados Unidos. Reúso em nível de prédio não resolve sozinho o problema, mas mostra como parcerias público-privadas podem aliviar parte da conta — uma lição que cidades brasileiras, também às voltas com redes de saneamento no limite, podem observar de perto.