
Satélite russo 'perseguidor' chega a 500m de nave e acende alerta nos EUA
O Cosmos 2612, satélite militar russo, passou dias manobrando a até 500 metros do satélite comercial ICEYE-X36, que fornece imagens de radar à Ucrânia. Autoridades dos EUA comparam o comportamento a uma arma orbital; Moscou nega.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
500 metros é menos do que a distância de cinco quarteirões — só que lá em cima, a 500 km de altitude, viajando a quilômetros por segundo, essa margem é mínima o bastante para transformar uma manobra orbital em motivo de alarme militar. Foi essa a distância que um satélite militar russo chegou a manter de um satélite comercial que presta serviço à Ucrânia, segundo empresas de rastreamento orbital.
O que foi confirmado
Entre 15 e 19 de outubro, o satélite russo Cosmos 2612 realizou uma série deliberada de manobras em torno do ICEYE-X36, satélite de radar de abertura sintética (SAR) operado pela ICEYE, empresa finlandesa de imageamento por satélite que fornece dados à Ucrânia desde 2022. De acordo com a LeoLabs, empresa americana de rastreamento de objetos em órbita, o satélite russo chegou a cerca de 500 metros do alvo e alternou posições à frente e atrás da espaçonave — um comportamento que a própria LeoLabs classificou como 'a operação de rendezvous e proximidade não cooperativa mais avançada e potencialmente perigosa que já observamos'. O episódio é descrito como o primeiro caso conhecido de rendezvous não autorizado entre dois satélites ativos em órbita baixa.
O contexto da desconfiança não é novo: em 2022, o funcionário do Ministério das Relações Exteriores russo Konstantin Vorontsov disse perante um comitê da ONU que satélites comerciais ocidentais que ajudam a Ucrânia poderiam se tornar 'alvos legítimos' de retaliação. Já em 2026, o comandante do Comando Espacial dos Estados Unidos afirmou ser 'evidente' que a Rússia estava testando uma arma espacial, citando outro satélite, o Cosmos 2558.
O que é hipótese (ou disputa de narrativa)
A classificação do Cosmos 2612 como 'arma orbital' é a leitura de autoridades e analistas de defesa dos EUA a partir do padrão de manobras observado — não uma confissão russa. Do lado russo, a posição pública é a oposta: autoridades do país alegam que o satélite tem caráter puramente pacífico e que as preocupações ocidentais são infundadas, mesmo sendo o mesmo governo que, anos antes, classificou satélites comerciais como alvos legítimos em cenário de guerra. Também não há confirmação pública independente sobre a real capacidade técnica do Cosmos 2612 de danificar ou interferir fisicamente em outro satélite — o que existe, até aqui, é a demonstração de que ele consegue se aproximar, inspecionar e acompanhar outra espaçonave.
Por que importa
O episódio tensiona ainda mais as regras não escritas do comportamento em órbita, justamente numa guerra em que imagens de satélite comercial se tornaram insumo de inteligência militar. Se o padrão do Cosmos 2612 se repetir com outros satélites de países ocidentais, a pressão por normas internacionais de segurança espacial tende a crescer — assim como o risco de um incidente orbital virar estopim de uma crise diplomática maior.