
Secas da Idade do Bronze: estudo revela papel do Atlântico no colapso
Pesquisa da Universidade de Estocolmo mostra que oscilações do Oceano Atlântico se somaram a um secamento climático de milênios para produzir as secas severas que ajudaram a derrubar civilizações do Mediterrâneo Oriental há 3.200 anos — o pano de fundo do mito de Odisseu.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: estamos falando de 8 mil anos de clima reconstruídos em um único modelo
Pra ter noção do tamanho do esforço: pesquisadoras da Universidade de Estocolmo usaram o modelo climático EC-Earth para reconstruir 8 mil anos de história climática do Mediterrâneo Oriental — só pra explicar o que aconteceu num intervalo de poucos séculos, há cerca de 3.200 anos, quando civilizações como micênicos, minoicos e o Império Hitita entraram em colapso.
O estudo, assinado por Katherine Power (doutoranda em Geografia Física) e Qiong Zhang (professora de modelagem paleoclimática), ambas da Universidade de Estocolmo, foi publicado na revista Science Advances. É esse período — o fim da Idade do Bronze, já em franco declínio — que serve de pano de fundo para o mito de Odisseu, recém-revisitado no filme "Odisseia" (2026), de Christopher Nolan.
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
O que é confirmado
Os dados mostram uma tendência de secamento gradual ao longo de milênios no Mediterrâneo Oriental, causada por mudanças lentas na órbita da Terra — algo já bem estabelecido na paleoclimatologia. Essa mudança orbital enfraqueceu os sistemas de monções e deslocou a Zona de Convergência Intertropical para o sul, reduzindo a quantidade de chuva na região ao longo do tempo.
Os efeitos, segundo o estudo, não foram uniformes: enquanto o Levante (área que hoje corresponde a Palestina, Líbano, Síria e Jordânia) ficou mais árido, os Bálcãs e a Anatólia registraram aumento de umidade e resfriamento de temperaturas.
O que é hipótese (a novidade do estudo)
Aqui está o principal achado, apresentado como contribuição nova: sobre essa tendência de longo prazo, oscilações de curto prazo do Oceano Atlântico e da atmosfera podem ter se somado e intensificado o processo. A ideia central é que os episódios de seca mais extremos surgiram quando ciclos climáticos de escalas de tempo diferentes — o secamento orbital lento e as flutuações atlânticas mais rápidas — coincidiram, empurrando o Mediterrâneo Oriental além de um limiar crítico.
Isoladamente, essas oscilações atlânticas de curto prazo talvez não fossem catastróficas. Combinadas com a tendência de fundo já em curso, os efeitos teriam sido amplificados — o que ajudaria a explicar por que justamente aquele período concentrou secas tão severas, coincidindo com o colapso de sociedades que dependiam de agricultura e comércio marítimo estáveis.
As autoras são enfáticas: a proposta é um mecanismo climático plausível, apoiado em modelagem, não uma causa única e definitiva para o colapso de civilizações — um processo que historiadores também atribuem a fatores políticos, econômicos e militares combinados.