
Selos de 5 mil anos sugerem que rainha Meretneith governou como faraó
Análise digital de selos reais achados em Saqqara indica que Meretneith, do Egito Antigo, exerceu poder pleno de rei há cerca de 5 mil anos. O estudo separa evidências confirmadas de hipóteses sobre sua trajetória política.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine uma tampa de pote de barro, do tamanho de uma mão, guardada em uma caixa de museu por 80 anos. Foi nela que pesquisadoras encontraram a pista que reabre a discussão sobre quem, de fato, mandava no Egito há 5 mil anos.
O que já era conhecido
Em 1946, o arqueólogo Walter Emery encontrou 13 tampas de barro — usadas para selar potes de cerâmica e vasos — em um túmulo na necrópole de Saqqara. Nelas estavam gravadas serekhs, o emblema em forma de fachada de palácio que carregava o nome de um governante e, no caso de reis, o falcão do deus Hórus no topo. No Egito Antigo, esse selo era símbolo exclusivo de quem detinha poder soberano supremo.
Foto: reprodução/theconversation.com
O que a tecnologia revelou agora
As pesquisadoras Sue Kelly e Crystal Miller aplicaram uma técnica de imagem digital para reler os hieróglifos das tampas: isolaram os símbolos, inverteram as cores e converteram as fotos em gráficos vetoriais de alto contraste. O procedimento tornou legível o nome de Meretneith inscrito nas serekhs — a mesma marca reservada a reis. O estudo foi publicado na revista científica Prague Egyptological Studies.
Confirmado vs. hipótese
É fato registrado nos selos e em outros vestígios: Meretneith, cujo nome remete a uma divindade egípcia, permaneceu na elite política por cerca de 30 anos, tinha um túmulo em Abidos com dimensões de governante real, centenas de recipientes de vinho e dezenas de câmaras auxiliares para sepultamento de servos — tudo isso indicando status supremo.
Já é hipótese das autoras a divisão da carreira de Meretneith em fases: ela teria começado como co-regente ao lado do rei Djer, possivelmente seu pai; teria sido também ligada a Djet; e depois atuado como regente durante a infância do filho Den, controlando as finanças públicas do reino. A leitura de que ela exerceu poder "pleno" de rei, e não apenas de regente temporária, é a interpretação em debate — não um consenso fechado.
Por que isso reescreve a linha do tempo
Até aqui, Sobekneferu era tratada como a mulher mais antiga a comandar o Egito com poder de rei, há cerca de 4 mil anos. Se a leitura de Kelly e Miller se confirmar, Meretneith a antecede em mais de mil anos — o que empurraria para trás o marco mais antigo conhecido de uma governante com poder supremo no Egito Antigo.