
Sete anos depois, startup lança sua primeira lontra espacial de verdade
A Starfish Space vai colocar em órbita o primeiro exemplar operacional do Otter, veículo que se aproxima de satélites desativados para inspecioná-los. É o salto de protótipo para produto real depois de quase uma década de testes.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: do tamanho de uma geladeira grande, mas com um trabalho de detetive orbital
Imagine um drone do tamanho de uma geladeira grande, flutuando a centenas de metros de um satélite morto, tirando fotos e medindo sua rotação sem tocar nele. É basicamente isso que a Starfish Space, empresa americana de serviços espaciais sediada na região de Seattle, está prestes a colocar em órbita pela primeira vez de forma operacional. O veículo se chama Otter — lontra, em inglês — e a missão marca o fim de sete anos de testes e protótipos desde a fundação da empresa, criada em 2019 por ex-engenheiros da Blue Origin, a fabricante de foguetes de Jeff Bezos.
O que está confirmado
Segundo reportagem da Ars Technica e cobertura cruzada de SpaceNews, GeekWire e Payload Space, o primeiro Otter de produção está pronto e tem cliente definido. Ele deve decolar no foguete Falcon 9 da SpaceX, na missão compartilhada Transporter-18, a partir da Base Vandenberg, na Califórnia, com lançamento previsto para outubro de 2026. Depois de comissionado em órbita, o veículo vai executar a missão SSPICY (Small Spacecraft Propulsion and Inspection Capability), financiada por um contrato SBIR Fase III de US$ 15 milhões concedido pela NASA em 2024. O objetivo é se aproximar de satélites americanos desativados, a poucas centenas de metros de distância, para coletar dados como velocidade de rotação, eixo de giro e estado da superfície de cada alvo — uma espécie de checkup remoto de lixo espacial ainda em órbita.
A empresa já testou uma versão reduzida do conceito em 2023, o chamado Otter Pup, que completou uma manobra de aproximação orbital com um satélite da d-Orbit em 2024. Também fechou contratos públicos relevantes: US$ 37,5 milhões com a Space Systems Command dos EUA em 2024 e US$ 52,5 milhões com a Space Development Agency em janeiro de 2026, ambos voltados a futuras missões de desorbitação. Em abril de 2026, a Starfish captou uma rodada Série B acima de US$ 100 milhões.
O que ainda é plano ou expectativa
A inspeção de satélites é só a porta de entrada: a proposta de longo prazo da Starfish é que o Otter também consiga capturar e reposicionar ou desorbitar satélites com defeito, prolongando a vida útil de constelações ou limpando detritos — algo que os contratos com SSC e SDA sinalizam, mas que ainda não foi demonstrado numa missão completa. Segundo Austin Link, cofundador da empresa, citado pela Ars Technica, este lançamento é o momento em que o Otter se torna real — uma forma de dizer que, até aqui, tudo era prova de conceito.
Por que isso importa
Com mais satélites obsoletos se acumulando em órbita baixa, a capacidade de inspecionar e eventualmente remover esses objetos sem intervenção humana direta é vista pela indústria espacial como peça-chave para manter o espaço utilizável no longo prazo.