
SF declara emergência de aluguel após boom de data centers de IA
Prefeito Daniel Lurie propõe pacote de US$ 30 milhões e seis leis para conter despejos em São Francisco, onde o aluguel mediano subiu 26% em um ano puxado pela corrida por talentos de IA.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Quem paga a conta do boom de IA em São Francisco
Enquanto startups de inteligência artificial disputam engenheiros a peso de ouro no Vale do Silício, é o morador comum de São Francisco quem recebe o aviso de despejo. O aluguel mediano na cidade subiu 26% no último ano — o maior salto entre as grandes cidades americanas — e as notificações de despejo aumentaram 44% no mesmo período, muitas vezes por atraso de poucos dias no pagamento.
Diante desse quadro, o prefeito Daniel Lurie declarou emergência habitacional e anunciou um pacote de mais de US$ 30 milhões em investimentos, acompanhado de seis ordenanças que ainda precisam passar pela Câmara de Supervisores da cidade.
Foto: reprodução/kqed.org
Para onde vai o dinheiro
A maior fatia, US$ 27 milhões, vai suprir a perda de vouchers federais de habitação que sustentam cerca de 650 famílias de renda extremamente baixa. Outros US$ 3 milhões reforçam a assistência jurídica gratuita a 400 famílias que enfrentam ações de despejo, e US$ 1 milhão financia uma campanha de "conheça seus direitos", em parceria com empregadores privados.
Foto: reprodução/missionlocal.org
Entre as medidas legislativas propostas estão a suspensão de despejos por atraso quando o valor devido é menor que o aluguel justo de mercado federal, um teto de 10% ao ano para reajustes em unidades sob controle de aluguel, e um aumento de 25% na compensação para inquilinos removidos sob a Lei Ellis, mecanismo usado por proprietários para retirar imóveis do mercado de locação.
Quem fiscaliza, e por quanto tempo dura o alívio
As medidas dependem de aprovação da Câmara de Supervisores e, na prática, de fiscalização municipal para que proprietários cumpram os novos limites — um ponto que já gera desconfiança entre defensores de inquilinos. Advogados de moradia classificam o pacote como incompleto, citando acordos de saída que pressionam inquilinos a deixar o imóvel sem receber recursos suficientes para se realocar na mesma cidade.
São Francisco não está sozinha: o mesmo padrão de aluguéis disparando perto de polos de data centers e empresas de tecnologia tem sido observado em outras regiões dos Estados Unidos que viraram destino de investimento em infraestrutura de IA. A pergunta que fica para o contribuinte de São Francisco é dupla: os US$ 30 milhões — bancados pelo orçamento municipal — são suficientes diante de um boom que não dá sinais de desacelerar, e quem vai garantir, no dia a dia, que o limite de 10% no aumento do aluguel realmente saia do papel?