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IA13 de ago. de 2026, 16:56

ShieldFont: a fonte que engana raspadores de IA e protege textos na web

Um par de desenvolvedores criou uma fonte web de código aberto que mostra um texto para humanos e outro, completamente diferente, para robôs que raspam páginas para treinar modelos de IA. A ideia divide opiniões entre proteção de conteúdo e acessibilidade.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Uma fonte que engana quem lê o código, não quem lê a tela

Imagine um livro em que você vê uma frase normal na página, mas se alguém fotografasse só o texto "por trás" das letras, encontraria outra frase, com sentido diferente. É basicamente isso que a ShieldFont faz na web. Criada por Isaque Seneda e Gabriel Abrucio, com apoio da type foundry Playtype, a fonte foi lançada como projeto de código aberto a partir de outubro de 2025 e ganhou repercussão internacional em agosto de 2026.

Como funciona, em bom português

Toda página web tem duas camadas: o que aparece desenhado na tela e o código HTML por trás, que é o que programas automáticos (os "scrapers") normalmente leem para copiar o conteúdo. A ShieldFont separa essas duas camadas: no código-fonte, ela troca palavras por outras de tipo gramatical e frequência parecidos — como troca a palavra "cavalo" por "motor" em uma frase sobre um cavaleiro — mas desenha na tela, usando os glifos da fonte, exatamente a palavra original que o leitor humano deveria ver. Ou seja, o navegador "pinta" o texto certo, enquanto o HTML bruto guarda um texto errado.

O efeito é que raspadores que apenas extraem o HTML — a forma mais barata e comum de coletar dados para treinar modelos de linguagem — acabam levando um texto corrompido. Segundo os criadores, a técnica tem um dicionário de quase 12 mil pares de palavras e consegue quebrar o sentido de mais de metade dos trechos testados em textos jornalísticos quando cerca de 25% das palavras são substituídas.

Os dois lados da moeda

A proposta é atraente para veículos e autores que veem seu conteúdo usado sem permissão para treinar IAs. Um dos criadores resume o público-alvo como pessoas "dispostas a pagar um pequeno preço" para resistir a essa prática.

Mas a solução tem custos. Como leitores de tela para pessoas com deficiência visual também dependem do código-fonte, e não do desenho na tela, a ShieldFont pode atrapalhar justamente quem usa tecnologia assistiva — por padrão, o texto "blindado" fica oculto desses leitores, e uma alternativa em fase beta exige que o navegador resolva uma tarefa computacional pesada para revelar o texto original. Ferramentas de busca, copiar-e-colar e tradução automática também podem ser afetadas, e crawlers mais sofisticados, que renderizam a página como um navegador faria (inclusive usando visão computacional), continuam enxergando o texto certo.

No fim, a ShieldFont não é uma barreira definitiva, mas eleva o custo de raspar conteúdo em escala — trocando centavos por página de operações que hoje são quase gratuitas.

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