
Simulação da LLNL testa bomba nuclear contra asteroide de 160 metros
Pesquisadores do Lawrence Livermore National Laboratory simularam a detonação de uma ogiva de 1 megaton perto de um asteroide do tamanho de Bennu e mediram até 98,2% de dano ao material rochoso.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: um prédio de 50 andares vindo na sua direção
Um asteroide de 160 metros de diâmetro — do tamanho do Bennu, visitado pela Nasa em 2020 — é grande o bastante para arrasar uma região inteira se colidir com a Terra. É esse o cenário que uma nova simulação do Lawrence Livermore National Laboratory (LLNL), nos Estados Unidos, tentou resolver com a ferramenta mais drástica do arsenal humano: uma bomba nuclear.
O que foi confirmado
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
A equipe liderada pelo astrofísico Isaiah Santistevan rodou simulações tridimensionais de alta fidelidade detonando uma ogiva de 1 megaton a curta distância de um asteroide modelado com as características do Bennu — sem tocar a rocha, apenas explodindo nas proximidades. Os resultados, publicados no periódico Planetary Science Journal:
- A 10 metros de distância da superfície, 98,2% do material do asteroide foi danificado, e 97% passou a se mover acima da velocidade de escape — ou seja, se desprendeu de vez do corpo principal.
- A 25 metros de distância, o dano total ficou em 92,6%, medido 68 milissegundos após a detonação.
- O mecanismo por trás disso são os raios X, responsáveis por 70% a 80% da energia liberada pela explosão. Eles vaporizam instantaneamente a superfície rochosa, e o material ejetado funciona como um pequeno propulsor, empurrando o asteroide para fora de rota. Uma onda de choque interna também provoca fraturas profundas, com potencial de fragmentar o corpo.
Foto: reprodução/sciencealert.com
O que ainda é hipótese
As simulações mais longas acompanharam apenas 145 milissegundos de evento — e mesmo assim precisaram de 59 dias de processamento em 1.680 processadores. Isso significa que o destino final dos pedaços do asteroide permanece incerto: segundo os próprios pesquisadores, o corpo poderia se fragmentar com segurança, gerar destroços ainda perigosos, ou até se reconstituir por atração gravitacional própria. Simular a trajetória desses fragmentos por mais tempo esbarra no limite computacional atual.
Outro ponto que o estudo não resolve é o tempo de alerta necessário. A ideia de usar uma arma nuclear como último recurso pressupõe detectar o asteroide com anos de antecedência, para enviar o dispositivo com margem de manobra — algo que hoje depende de programas de rastreamento que ainda cobrem apenas uma fração dos objetos próximos à Terra.
O trabalho se soma a estudos anteriores do próprio LLNL, incluindo uma biblioteca de funções de deposição de energia de raios X publicada em 2023, usada para calibrar como diferentes materiais — rocha, ferro, gelo — reagem à radiação de uma explosão nuclear no espaço.