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Ciência15 de out. de 2026, 10:21

Simulação sobre 'apagar' o Sol para resfriar a Terra prevê corrida geopolítica

Um war game reuniu cientistas, militares e ex-diplomatas para testar o que aconteceria se um país decidisse sozinho jogar partículas na atmosfera para reduzir a luz solar. O resultado: desconfiança mútua e risco maior de conflito armado.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Imagine uma sala de reuniões em Londres com cerca de duas dezenas de pessoas — cientistas, militares, ex-diplomatas — decidindo, em tempo simulado, o destino do clima do planeta. Foi isso que aconteceu na Queen Mary University of London, em setembro, no primeiro de uma série de exercícios batizados de “Exploring Geopolitical Tipping Points and Climate Cooling Strategies” (algo como “Explorando pontos de inflexão geopolíticos e estratégias de resfriamento climático”). É confirmado: o jogo existiu e reuniu especialistas de diferentes países.

O que é confirmado

O objetivo do exercício era testar a reação do mundo a tecnologias de modificação da radiação solar — a chamada geoengenharia solar, que promete reduzir o aquecimento global ao refletir parte da luz do Sol de volta para o espaço, por exemplo pulverizando partículas como dióxido de sulfeto na estratosfera. A pesquisadora climática Colleen Golja participou da rodada de setembro, conforme relatado pela reportagem.

O cenário simulado partiu de uma premissa específica: um único país decide, por conta própria, implantar a tecnologia de injeção de aerossóis estratosféricos (SAI, na sigla em inglês), sem acordo internacional prévio. A partir daí, o jogo mediu como as outras potências reagiriam.

O que os resultados mostraram

Segundo a simulação, a ação unilateral de um país aumentaria em 40% a probabilidade de conflito armado em comparação com cenários climáticos de referência — um número que é projeção do modelo, não dado histórico observado. Dentro de cinco anos de jogo, três outras grandes potências teriam lançado medidas de retaliação — não necessariamente para revertê-lo, mas para garantir controle próprio sobre o que os pesquisadores chamam de “escudo atmosférico”. Cadeias de suprimento de ácido sulfúrico e de sistemas de entrega em alta altitude se tornariam, nesse cenário, ativos estratégicos disputados.

Um dos achados mais citados pelos próprios organizadores é comportamental: a desconfiança mútua fez com que todos os participantes saíssem da sala convencidos de que os outros países estavam correndo para desenvolver sua própria capacidade de geoengenharia o mais rápido possível — um indício, segundo os pesquisadores, de que uma corrida armamentista climática é um risco real, não apenas teórico.

O que é hipótese

Tudo isso é simulação, não previsão determinística: o jogo modela um cenário específico com regras definidas pelos organizadores, e os números — como o salto de 40% na probabilidade de conflito — valem para esse recorte, não como certeza sobre o futuro real. Ainda assim, o exercício serve como alerta: debates técnicos sobre geoengenharia tendem a ignorar a dimensão geopolítica, e o war game sugere que essa lacuna pode custar caro.

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