
Simulador da Ford em Tatuí recria qualquer estrada do mundo
O Centro de Desenvolvimento e Tecnologia da Ford em Tatuí (SP) opera desde 2023 um dos três simuladores de dinâmica veicular do tipo existentes no planeta, reproduzindo neve, deserto e curvas de pistas reais numa tela de 210 graus.
Por Bruno Vilela · Repórter de Gadgets
Uma especificação que parece ficção, mas é linha de produção
Tela curva de 4,5 metros, 210 graus de campo de visão, perímetro de 9,3 metros e seis computadores de alto desempenho — no papel, isso é uma planilha de hardware. Na prática, dentro do Centro de Desenvolvimento e Tecnologia da Ford em Tatuí, no interior de São Paulo, essa especificação virou a experiência de dirigir uma pista gelada na Europa ou uma estrada esburacada no meio do deserto sem sair de uma sala fechada. O engenheiro se posiciona no ponto central da curvatura e sente, em tempo real, como a suspensão, a direção e os pneus de um carro reagem a cada condição simulada.
O simulador está em operação desde 2023 e é só o terceiro do tipo no mundo — os outros dois ficam nos Estados Unidos e na Bélgica. Ou seja, não é uma demonstração de PR: é peça rara de um fluxo de engenharia que conecta Tatuí a Camaçari (BA) e às equipes americanas da Ford, todas trabalhando nos mesmos modelos virtuais.
Foto: reprodução/autoentusiastas.com.br
Do túnel de vento ao arquivo digital
Teste de carro sempre foi sinônimo de pista física, cronômetro e protótipo caro rodando sob chuva, neve ou calor extremo — processo que consome meses e exige enviar unidades inteiras para climas específicos. O simulador de Tatuí ataca esse gargalo com digital twins: pneus de diferentes fabricantes, por exemplo, são medidos fisicamente nos EUA e viram um gêmeo virtual com todas as propriedades mecânicas catalogadas. A partir daí, a Ford reproduz o mesmo teste quantas vezes quiser, trocando variáveis sem desgastar peça nenhuma nem reservar uma pista de provas.
Foto: reprodução/exame.com
É a mesma lógica que já vemos em outras áreas de hardware — simular antes de fabricar —, só que aplicada a algo que até pouco tempo dependia obrigatoriamente de quilometragem rodada. A Ford também estuda incorporar inteligência artificial para refinar os modelos matemáticos que alimentam o simulador, o que deve tornar as réplicas de estradas ainda mais próximas da realidade.
O que isso muda para quem compra carro no Brasil
Tatuí não é um centro decorativo: é um dos nove centros de desenvolvimento da Ford no mundo, com mais de 1.500 especialistas que exportam engenharia para mercados como EUA, Europa e China. Na prática, isso significa que parte da suspensão, da direção e do comportamento dos próximos modelos Ford vendidos aqui — e em outros países — passa por testes validados em solo brasileiro antes de qualquer protótipo rodar em pista.
Para o consumidor, o ganho não é visível na ficha técnica do carro, mas no prazo e na consistência: menos tempo de desenvolvimento, mais repetições de teste sob a mesma condição controlada e, em tese, menos surpresa de comportamento quando o carro sai da fábrica para a rua.