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Ciência20 de set. de 2026, 18:01

Sinal de rádio intriga astrônomos: ativo há 20 anos e sem raios X

A fonte VT J1906+0849, na Via Láctea, brilha em ondas de rádio desde pelo menos 2005 e nunca apareceu em nenhum telescópio de raios X, o que confunde os modelos conhecidos para esse tipo de objeto.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Imagine uma lâmpada de rádio tão distante que a luz que vemos hoje partiu de um ponto entre 49 mil e 104 mil anos-luz daqui — ou seja, de 15 mil a 32 mil parsecs, uma faixa de incerteza que por si só já dá a dimensão de como é difícil localizar esse tipo de objeto dentro da própria Via Láctea. Essa lâmpada, batizada de VT J1906+0849, está acesa continuamente desde pelo menos 2005 e, ao contrário de quase tudo que os astrônomos catalogam como "transiente", não deu sinais de apagar.

O que está confirmado

Foto: reprodução/phys.org

O objeto foi identificado como a fonte mais brilhante do Very Large Array Sky Survey (VLASS), um mapeamento do céu em ondas de rádio conduzido com antenas do Observatório Nacional de Radioastronomia dos Estados Unidos que já catalogou milhões de fontes desde 2017. Cruzando esse levantamento com registros de arquivo, a equipe liderada por Jessie M. Miller, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), uma das universidades mais respeitadas em física e astronomia do mundo, mostrou que o brilho da fonte já existia em 2005, subiu a um pico acima de 200 mJy em 2014, caiu depois disso e voltou a aumentar no fim de 2025 — uma variação de pelo menos seis vezes ao longo de 21 anos.

A temperatura de brilho medida, entre 100 milhões e 10 bilhões de Kelvin, indica emissão não térmica, do tipo síncrotron, associada a partículas aceleradas por campos magnéticos intensos. E, apesar de toda essa energia, o telescópio espacial Swift, da Nasa, não captou nenhum raio X vindo da região — o que descarta, segundo os pesquisadores, o comportamento típico de binárias de raios X conhecidas na Via Láctea.

O que ainda é hipótese

O artigo, publicado como pré-print no arXiv, não fecha o caso. A explicação mais defendida pela equipe é a de acreção contínua de matéria em um objeto compacto — um buraco negro ou uma estrela de nêutrons — que sustentaria jatos de partículas por décadas, em vez de uma explosão pontual ou os restos de uma supernova em dispersão lenta. Os pesquisadores comparam o caso ao microquasar SS 433, um sistema já conhecido em que um objeto compacto engole matéria de uma estrela companheira e lança jatos visíveis, mas reconhecem que VT J1906+0849 seria uma versão mais jovem e ainda mais enigmática desse fenômeno.

Por enquanto, a origem exata segue sem confirmação — e é isso que mantém o objeto no radar de quem observa o céu em ondas de rádio.

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