
Skydance nasce afundada em US$ 80 bi de dívida ao engolir a Warner
A fusão de US$ 110 bilhões entre Paramount e Warner Bros. Discovery criou a Skydance, mas a nova gigante do entretenimento já nasce com uma montanha de dívida que pode custar mais de US$ 6 bilhões por ano em juros.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 80 bilhões é o número que importa
Foi fechada em 6 de outubro a fusão entre Paramount Skydance e a Warner Bros. Discovery, negócio avaliado em US$ 110 bilhões que deu origem a uma nova gigante do entretenimento batizada simplesmente de Skydance. Mas o que nasce junto com a marca é uma dívida de aproximadamente US$ 80 bilhões a US$ 82,5 bilhões em base pro forma — o verdadeiro protagonista da história, segundo analistas ouvidos por Hollywood Reporter e Forbes.
Nos termos do acordo, a Paramount pagou US$ 31,00 por ação da WBD, o que representava um valor de equity de US$ 80,9 bilhões no momento da assinatura, além de assumir a dívida líquida da Warner. Para fechar a conta, a estrutura de financiamento combina cerca de US$ 47 bilhões em capital próprio — aportado pela família Ellison e pela RedBird Capital Partners, gestora de investimentos que já era sócia de David Ellison em negócios anteriores de mídia — com outros US$ 54 bilhões em dívida, comprometidos por bancos como Bank of America, Citigroup e Apollo.
Os múltiplos que assustam
Uma dívida de US$ 80 bilhões não é só um número grande: ela se traduz em pagamentos de juros anuais que podem superar US$ 6 bilhões, segundo a Forbes. Não por coincidência, essa é exatamente a meta de sinergias de custo que a companhia prometeu ao mercado — ou seja, cada centavo economizado com a fusão de estruturas vai direto para pagar o empréstimo, sem sobrar músculo para investir. É um parênteses e tanto num setor cujo fator decisivo é a avalanche de orçamento jogada contra os concorrentes do streaming.
Quem ganha e quem perde
O maior vencedor tem nome: David Ellison, executivo que fundou a produtora Skydance em 2010 e hoje comanda a Paramount, filho do cofundador da Oracle, Larry Ellison. A família Ellison investiu cerca de US$ 17 bilhões na operação, e o patriarca deu garantia pessoal de até US$ 46,7 bilhões do financiamento em equity — uma aposta que consolida David como o novo magnata de Hollywood, agora co-CEO da Skydance ao lado de Ynon Kreiz. O negócio também contou com apoio de fundos soberanos da Arábia Saudita, do Catar e dos Emirados Árabes Unidos.
Quem perde, por ora, é a história recente de quem tentou comprar a Warner: AOL, AT&T e a própria Discovery fracassaram na tentativa de fazer o estúdio funcionar sob holdings maiores — a diferença é que a Discovery, ao menos, conseguiu revender os ativos com lucro para a Skydance. Como parte de um acordo regulatório para destravar a fusão, a Paramount também se comprometeu a investir ao menos US$ 300 milhões por ano em produção doméstica e lançar 30 filmes nos cinemas em cada um dos próximos dois anos — um compromisso que vai disputar caixa com o pagamento da dívida bilionária que acabou de herdar.
Atualização (11/10, 13:05): Atualização (11/10): A fusão que pariu a Skydance com US$ 80 bi de dívida quase não saiu do papel na última hora. Um dia antes do fechamento oficial, em 5 de outubro, a ministra Elena Kagan, da Suprema Corte americana, negou um pedido de emergência para suspender a operação — última tentativa de opositores de travar a venda da Warner Bros. Discovery sob a alegação de que o negócio seguia anticompetitivo mesmo com as salvaguardas já acordadas.
Essas salvaguardas vieram do acordo fechado em setembro entre a Paramount e uma coalizão de 12 procuradores-gerais estaduais que processava para bloquear a compra. Pelos termos, a empresa comandada por David Ellison se comprometeu a lançar ao menos 30 filmes por ano nos cinemas, criar um conselho de independência editorial para blindar a CNN e a CBS News, investir US$ 300 milhões extras ao ano em produção nos EUA e não vender os estúdios da Warner Bros. nem da Paramount na Califórnia por pelo menos cinco anos. Foi esse pacote que destravou a aprovação judicial e abriu caminho para o fechamento em 6 de outubro.
O episódio também reforça por que a Netflix ficou de fora: a gigante do streaming tinha oferecido US$ 82,7 bi apenas pelos estúdios e pelo streaming da Warner, mas recuou da disputa no fim de fevereiro diante da proposta mais robusta da Paramount, de US$ 111 bi por todos os ativos — incluindo HBO, CNN e HGTV. Como prêmio de consolação, a Paramount pagou à Netflix os US$ 2,8 bi de multa contratual previstos caso a Warner aceitasse oferta superior, valor que ajudou a inflar ainda mais a conta da fusão já afogada em dívida.