tech & talk
Ciência26 de set. de 2026, 16:40

Sol pode lançar uma "superexplosão" a cada 100 anos, mas isso ainda é hipótese

Estudo do instituto alemão Max Planck usa uma mancha solar gigante registrada em 1947 para calcular, de forma teórica, o quanto o Sol poderia liberar de energia numa explosão extrema — sem nunca ter observado o fenômeno de fato.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana: uma mancha 40 vezes o diâmetro da Terra

Em abril de 1947, o Sol produziu a maior mancha solar já registrada em quase 400 anos de observações sistemáticas: cobriu cerca de 0,6% do disco solar visível, com um diâmetro equivalente a 40 vezes o da Terra. Isso é fato confirmado, documentado por astrônomos da época — mas nenhum instrumento de 1947 conseguia medir a energia total liberada por uma explosão daquele porte, então ninguém sabe, com certeza, quanta energia aquela mancha efetivamente produziu.

É esse buraco nos dados que um novo estudo do Instituto Max Planck de Pesquisa do Sistema Solar, centro de pesquisa alemão dedicado à física do espaço, tentou preencher. Publicado na revista britânica Philosophical Transactions of the Royal Society A, o trabalho tem Natalie Krivova como autora principal.

Foto: reprodução/phys.org

O que é dado e o que é extrapolação

Os pesquisadores usaram 300 das erupções solares mais fortes registradas pelo satélite Solar Dynamics Observatory, da agência espacial americana NASA, entre 2010 e 2016, para calcular uma correlação estatística entre o tamanho de uma região magnética ativa do Sol e a energia que ela consegue liberar numa erupção. Isso é medição real, com dados de satélite.

O passo seguinte, porém, é hipótese: aplicando essa correlação à mancha gigante de 1947 — de forma retroativa e teórica, já que não há como medir a energia real daquele evento —, os cientistas estimam que o Sol tem "potencial" para gerar uma superexplosão, com margem de erro reconhecida pelos próprios autores de duas a três vezes. A frequência de uma superexplosão por século não vem de observação do Sol propriamente, e sim de dados estatísticos coletados em milhares de outras estrelas parecidas com o Sol, monitoradas por telescópios espaciais como o Kepler, da NASA.

Sem prova direta, mas sem descartar o risco

A própria Krivova evita cravar uma previsão: segundo ela, "há alguma evidência sugerindo que o Sol também pode produzir superexplosões em grandes intervalos", e a mancha de 1947 "pode, em princípio, servir de ponto de partida" para explosões extremas — mas o instituto Max Planck é explícito ao afirmar que, "segundo o estado atual da pesquisa, não há prova direta" de que isso realmente ocorra no Sol.

Em termos práticos, o que está confirmado é que o Sol nunca produziu uma superexplosão observável nos cerca de 70 anos de monitoramento espacial contínuo que a humanidade tem. O que é hipótese é se — e quando — isso pode acontecer, e o tamanho exato do estrago: uma superexplosão solar teria energia muito superior à do Evento Carrington de 1859, a mais forte tempestade geomagnética já registrada, que queimou equipamentos de telégrafo e provocou auroras vistas até o Caribe. Para efeitos de rede elétrica, satélites e comunicação hoje, o cenário permanece teórico — mas motiva os cientistas a insistir em mais observação solar de longo prazo.

solastrofísicaclima espacialerupção solarmax planck
Compartilhar