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Ciência02 de set. de 2026, 17:13

Sol pode 'perder a memória' e complicar previsão do próximo ciclo

Estudo com 180 anos de dados geomagnéticos sugere que ciclos solares ímpares apagam o rastro que ajudaria a prever o ciclo seguinte.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Pense no Sol como alguém que anota o humor de cada dia num diário — só que, a cada dois anos e meio, ele rasga as páginas de metade dos anos e começa do zero. É mais ou menos essa a ideia por trás de um estudo da Universidade de Oulu, na Finlândia, que analisou cerca de 180 anos de registros geomagnéticos, usando o chamado índice aa, medido desde 1844.

O que está confirmado

Os pesquisadores encontraram um padrão que só aparece ao final de ciclos solares ímpares: o comportamento geomagnético registrado nesse momento perde a relação estatística com a intensidade do ciclo solar seguinte. Em ciclos pares, dá para prever a força do próximo ciclo usando o número de manchas solares cerca de 41 meses antes do mínimo solar. Em ciclos ímpares, a previsão dependeria do pico do índice aa perto do equinócio de outono, numa janela de três anos antes do mínimo — só que, segundo o estudo, essa correlação desaparece depois de ciclos ímpares.

O que ainda é hipótese

Estamos atualmente no ciclo solar 25, que é ímpar e já passou do pico, caminhando para o mínimo. Se o padrão do estudo se confirmar, o ciclo 26, esperado para começar por volta de 2030, teria que ser previsto "do zero", sem o atalho estatístico que funciona para ciclos pares. A base teórica remonta à regra de Gnevyshev-Ohl, de 1948, que já apontava que os ciclos solares vêm em pares, com a metade ímpar normalmente mais intensa que a par — o estudo finlandês soma evidência nova a essa ideia antiga, mas ainda não é a palavra final sobre o mecanismo físico por trás da "perda de memória".

Por que isso afeta você

Prever ciclos solares não é curiosidade acadêmica: tempestades solares fortes derrubam precisão de GPS, afetam redes elétricas e podem danificar satélites — o Brasil já sentiu esse efeito indireto quando uma tempestade solar chegou a derrubar a precisão do GPS nos Estados Unidos em escala inédita, em novembro. Um ciclo 26 mais difícil de prever significa também mais dificuldade de antecipar quando essas tempestades vão acontecer.

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