
Solidigm troca equipamento chinês por fábrica de NAND nos EUA
A Solidigm, braço de armazenamento da SK Hynix, condiciona a construção de uma nova fábrica de NAND nos EUA à liberação de mais equipamentos americanos para sua planta na China. O impasse expõe o jogo geopolítico por trás do boom de preços de memória.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: 15% a 20%
Esse é o salto trimestral projetado pela TrendForce para os preços de contrato de memória NAND no quarto trimestre de 2026, puxado pela demanda de servidores de IA e por uma escassez global que já vinha de trimestres anteriores. É nesse cenário de preços em disparada que a Solidigm, subsidiária de armazenamento da SK Hynix (gigante sul-coreana de chips de memória, uma das três maiores fabricantes do mundo) comprada da divisão de SSDs da Intel, decidiu jogar um blefe regulatório em Washington.
A barganha: equipamento por fábrica
Foto: reprodução/trendforce.com
Segundo a Reuters e a TechCrunch, a Solidigm está pedindo ao governo dos EUA uma licença de exportação para enviar mais equipamentos de fabricação — de empresas americanas como Lam Research, Applied Materials e KLA — para a fábrica Dalian Mod B, da SK Hynix, na China, concluída em 2023 mas com instalação de máquinas ainda incompleta desde a última desaceleração do mercado de memória. Em troca, a empresa condiciona seus planos de erguer uma nova fábrica de NAND no estado de Nova York à concessão dessa licença. A lógica declarada: a produção extra em Dalian ajudaria a financiar o investimento bilionário em solo americano, servindo como ponte até a capacidade doméstica entrar em operação.
Quem ganha e quem perde
A SK Hynix afirmou que não está buscando expandir a capacidade em Dalian e que a instalação do equipamento ocorre em estreita consulta e sob autorização do governo dos EUA — mas o Departamento de Comércio ainda não emitiu a licença para o novo lote de equipamento, segundo a Reuters. O histórico recente não ajuda a previsibilidade: em setembro de 2025, o governo Trump revogou isenções especiais que Samsung, SK Hynix e Intel tinham para operar na China sem autorização caso a caso; em dezembro, as duas sul-coreanas receberam licenças anuais para enviar equipamento. Em julho, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, já havia dito publicamente que gostaria de ver Samsung e SK Hynix construindo fábricas nos EUA — exatamente a carta que a Solidigm agora usa como moeda de troca.
O pano de fundo do IPO
A jogada não é isolada: a Solidigm se prepara para uma oferta pública inicial nos EUA em 2027, que pode levantar cerca de US$ 10 bilhões com avaliação de até US$ 100 bilhões. Garantir capacidade de produção — seja na China, mais barata e já instalada, seja nos EUA, politicamente mais segura — é peça-chave para sustentar essa narrativa diante de investidores, num momento em que o mercado de NAND vive aperto de oferta e preços em alta de dois dígitos. Quem perde, por ora, é a previsibilidade: a aprovação depende de Washington, e o relógio do IPO não espera burocracia.