
Sony e UMG processam Suno de novo: v6 seria "filho" de modelo pirata
Gravadoras dizem que o novo modelo v6 da Suno, apresentado como treinado do zero com dados licenciados, ainda carrega o pecado original: foi refinado com as saídas de modelos anteriores nascidos de música não licenciada.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
A árvore, o fruto e o veneno
Imagine que uma padaria é multada por usar farinha roubada. Para se livrar do problema, ela troca de fornecedor, mas continua usando o fermento tirado do lote antigo. O pão é outro, mas o vício de origem viaja junto. É essa, essencialmente, a tese que Universal Music Group (UMG) e Sony Music apresentaram na Justiça americana contra a Suno, startup de inteligência artificial que gera músicas completas a partir de comandos de texto.
As gravadoras entraram, em 18 de setembro, com um novo processo na corte federal de Boston — o segundo contra a empresa, que já respondia por uma ação de 2024 relativa aos seus modelos anteriores. Desta vez, o alvo é o v6, modelo lançado pela Suno há poucas semanas e apresentado pela empresa como treinado "inteiramente do zero", sem uso de material da Universal ou da Sony.
O jargão traduzido: o que é "lavagem de modelo"
Aqui mora o núcleo jurídico da disputa. A alegação é que o v6 não nasceu puro: ele teria sido calibrado a partir das interações de usuários com os modelos antigos da própria Suno — músicas que o sistema anterior gerou, e que, segundo a primeira ação, foram treinadas com gravações tiradas do YouTube sem licença. Na petição, os advogados resumem a tese numa frase que funciona quase como manchete: treinar um modelo "novo" com as saídas de um modelo infrator não elimina a infração, apenas a lava. Em outra passagem, chamam o v6 de "fruto da mesma árvore envenenada".
O valor em disputa é grande: as gravadoras apontam 60.202 gravações supostamente copiadas sem autorização, número que, segundo a própria petição, seria "apenas uma fração" do total.
Dois lados de uma briga que vai definir a IA musical
De um lado, as gravadoras defendem que artista, compositor e intérprete têm direito de decidir quem lucra com sua obra — e que nenhuma reformulação técnica apaga uma origem ilícita. Do outro, a Suno resiste: por meio de seu diretor de produto, Jack Brody, a empresa afirma que o v6 foi construído "do chão para cima", com dados que não incluem material da Universal ou da Sony. A Justiça de Massachusetts, que já lida com a ação original movida em 2024, agora terá de decidir se atualizar a receita realmente lava a farinha roubada — ou se o gosto do pão antigo continua ali, entranhado.