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Ciência25 de ago. de 2026, 12:14

SP ajuda a mapear quase 55 mil vírus de RNA; 77% eram desconhecidos

Estudo publicado na Nature Communications reuniu amostras de 102 cidades em 31 países, incluindo São Paulo, e catalogou 54.945 espécies de vírus de RNA — a maioria delas nunca antes registrada pela ciência.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: quase 55 mil vírus em pouco mais de 100 cidades

Imagina passar o cotonete em um banco de metrô, num corrimão de hospital ou na água de um esgoto — e achar, ali, um vírus que nenhum cientista jamais catalogou. Foi basicamente isso que aconteceu, em escala global, num levantamento que colheu quase 3 mil amostras em 102 cidades de 31 países, São Paulo entre elas. O resultado: 54.945 espécies de vírus de RNA identificadas, das quais cerca de 77% eram totalmente inéditas para a ciência.

O que é confirmado

Foto: reprodução/medicalxpress.com

O estudo, publicado na revista Nature Communications, deu origem ao UPVAtlas (Urban & Peri-urban RNA Virus Atlas), um catálogo global de vírus de RNA encontrados em ambientes urbanos e peri-urbanos. As coletas aconteceram em locais de alta circulação de pessoas — hospitais, estações de transporte, bancos, superfícies públicas — além de solo, água e esgoto. A técnica usada foi a metatranscriptômica, que sequencia todo o material genético de RNA presente numa amostra ambiental, sem precisar isolar um organismo específico previamente.

Um dos autores é o professor Antônio Pedro Camargo, do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP, que também desenvolveu o geNomad, a ferramenta de bioinformática usada para separar as sequências virais do restante do material genético coletado. Dentro do total catalogado, os pesquisadores confirmaram cerca de 60 vírus com alta probabilidade de infectar humanos, 47 associados a possíveis infecções em outros mamíferos e 166 vírus (bacteriófagos) que interagem com bactérias resistentes a antibióticos, do grupo conhecido como ESKAPE. Para cerca de um terço de todas as sequências, foi possível identificar um hospedeiro provável.

O que ainda é hipótese

A reconstrução filogenética das enzimas RNA-polimerase dependente de RNA — usadas para comparar o parentesco evolutivo entre os vírus — apontou para a existência de dois possíveis novos filos e uma nova classe de vírus de RNA, além de vários grupos ainda não classificados. Essa é a parte do achado que os próprios pesquisadores tratam como preliminar: são candidatos a novas categorias taxonômicas, não confirmações definitivas, e dependem de análises adicionais para serem validados formalmente pela comunidade científica.

Por que isso importa

O catálogo não indica um surto ou risco iminente — a maioria dos vírus recém-descobertos provavelmente nunca vai infectar humanos. O valor do UPVAtlas está em criar uma linha de base: um mapa do que já circula, silenciosamente, nos ambientes urbanos que milhões de pessoas frequentam todos os dias. Esse tipo de repositório é o que permite, no futuro, identificar mais rápido se um vírus novo é realmente novo ou apenas mais um membro de uma família já mapeada.

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