
SpaceX quer comprar casas de vizinhos incomodados por ruído de data center
Subsidiária da SpaceXSI oferece comprar centenas de casas perto de uma usina a gás no Mississippi, mas exige que moradores desistam de processar a empresa por ruído.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O que está em jogo em Southaven
Imagine um corretor tocando a sua campainha com uma proposta de compra pela casa onde você mora há vinte anos — com uma cláusula escondida no contrato dizendo que você precisa desistir de processar a empresa vizinha. É basicamente isso que está acontecendo no bairro de Southaven, no estado americano do Mississippi. A MZX, subsidiária da SpaceXSI (a fusão entre a SpaceX e a xAI, empresa de inteligência artificial fundada por Elon Musk em 2023) que opera a infraestrutura de energia, está tentando comprar cerca de 418 casas da vizinhança.
O motivo não é expansão imobiliária generosa: é ruído. As casas ficam perto de uma usina formada por 69 turbinas a gás temporárias, montada para alimentar os data centers que processam a inteligência artificial da empresa na região de Memphis, Tennessee. Moradores relatam incômodo constante causado pelo barulho da geração de energia.
A letra pequena do contrato
Até agora, 18 casas já foram negociadas, e 5 compras já foram concluídas. O valor médio oferecido por imóvel giraria em torno de 180 mil dólares, segundo informações repercutidas pelo jornal britânico The Guardian. O problema é a condição embutida: quem vende não pode se juntar à ação coletiva que moradores da região abriram em junho de 2026 contra a SpaceXSI, alegando incômodo por ruído e poluição ligados à usina. Ou seja, a empresa estaria comprando o silêncio das pessoas — literalmente — junto com os imóveis.
Quem fiscaliza isso, afinal?
Aqui mora a pergunta que interessa a qualquer morador brasileiro que já viveu perto de uma obra ruidosa ou de uma subestação de energia: quem garante que a medição do incômodo é feita de forma independente, e que a solução não é simplesmente comprar quem reclama mais alto? No caso americano, a disputa virou processo judicial — um caminho que, por si só, mostra que a usina temporária operou por tempo considerável gerando queixas, antes de qualquer solução definitiva aparecer.
Vale comparar com o Brasil: data centers de gigantes de tecnologia também vêm se multiplicando por aqui, atraídos por incentivos fiscais e energia relativamente barata, mas sem o mesmo nível de judicialização coletiva que vemos nos Estados Unidos. Se um projeto desses gerar incômodo sonoro na vizinhança de uma cidade brasileira, qual órgão municipal ou estadual seria acionado primeiro — e a população saberia a quem recorrer? Quanto custou a instalação dessas turbinas temporárias, e quem paga a conta se a solução definitiva atrasar? São perguntas que valem tanto para Southaven quanto para qualquer cidade brasileira que sonha em atrair o próximo grande data center de inteligência artificial.