
Split payment: adiamento não muda o alerta sobre o caixa das pequenas empresas
Mecanismo que separa IBS e CBS no momento do pagamento foi adiado pelo Comitê Gestor do IBS, mas a reforma tributária já sinaliza menos dinheiro disponível no caixa das pequenas empresas quando entrar em vigor.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que preocupa o caixa das pequenas empresas
A partir da entrada em vigor do split payment, parte do dinheiro que hoje passa pelo caixa das empresas — mesmo que temporariamente, entre a venda e o recolhimento dos tributos — deixará de chegar até elas. O mecanismo, previsto na Lei Complementar 214/2025, separa automaticamente o IBS e a CBS no momento do pagamento: o valor do imposto vai direto para o Fisco, e só o restante, líquido, é repassado ao fornecedor.
Como funciona na prática
Nas transações feitas por Pix, cartões de crédito e débito ou boletos registrados, o prestador do serviço de pagamento (banco ou adquirente) identifica o valor de IBS e CBS já na iniciação da cobrança. Na liquidação financeira, ele retém essa parcela e transfere ao vendedor apenas o valor líquido da venda. Em 2026, ano de testes da reforma, CBS e IBS incidem em alíquotas simbólicas de 0,9% e 0,1%, respectivamente, sem efeito arrecadatório relevante, mas já servindo para calibrar os sistemas.
Adiamento não muda o alerta, só o prazo
O cronograma inicial previa início facultativo do split payment em 2027, restrito a operações entre empresas. Mas o Comitê Gestor do IBS (CGIBS), em reunião realizada em 12 de agosto de 2026, decidiu que a cobrança de CBS e IBS começa em janeiro de 2027 sem o split payment em operação simultânea. Segundo a secretária Pricilla Santana, à frente do comitê, a implementação exige mais tempo, e as próprias instituições financeiras solicitaram prazo adicional para adequação — o mecanismo foi descrito como uma das ferramentas de maior complexidade técnica de toda a reforma.
Quem sente mais o impacto
O adiamento dá fôlego, mas não elimina o problema: quando o split payment entrar em vigor de fato, o efeito no fluxo de caixa recai com mais força sobre pequenas empresas e negócios com margens apertadas, que dependem desse intervalo entre venda e recolhimento para cobrir despesas correntes. Bancos e adquirentes ganham papel mais central na engrenagem tributária. A recomendação de especialistas do setor contábil é rever a dependência do caixa tributário como fonte de capital de giro e negociar linhas de crédito antes que o mecanismo passe a valer.