
Startup de advocacia com IA faz lance pela marca da centenária Weil Gotshal
A Crosby, firma jurídica que opera com agentes de inteligência artificial, apresentou proposta para comprar marca, nome e dados internos da Weil, Gotshal & Manges, banca de Wall Street que se prepara para votar a própria dissolução.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
1.200 advogados. É esse o tamanho da banca que a Weil, Gotshal & Manges, tradicional escritório de advocacia de Wall Street com quase 95 anos de história, está prestes a dissolver — e é justamente esse capital humano e de dados que atraiu o lance de uma rival bem mais jovem: a Crosby, firma de advocacia construída em torno de inteligência artificial.
A Weil Gotshal confirmou ao New York Times que se prepara para uma votação de dissolução nos próximos dias. O colapso foi puxado por uma combinação de fatores: o suposto sucessor na liderança recusou o cargo, vários sócios que traziam clientes relevantes deixaram a firma, e uma fusão em negociação com a rival Willkie Farr & Gallagher foi engavetada.
A proposta da Crosby
A Crosby, fundada há dois anos por Ryan Daniels (CEO) e John Sarihan (CTO, ex-gerente de engenharia na fintech americana Ramp), apresentou um lance para comprar ativos específicos da Weil Gotshal: a marca registrada, o nome da firma e dados internos não revelados publicamente. Os termos financeiros da oferta não foram divulgados, e não há garantia de que o negócio será concluído.
Em paralelo à compra de ativos, a Crosby também está tentando contratar parte dos 1.200 advogados da banca que está se desfazendo. O interesse por dados internos — como modelos de contratos de fusões e aquisições e documentos em diferentes estágios de negociação — não é incidental: esse tipo de material não ligado a clientes específicos é o tipo de insumo usado para treinar e ajustar sistemas de IA jurídica.
Quem ganha, quem perde
A Crosby já levantou cerca de US$ 85 milhões, somando uma rodada seed de US$ 5,8 milhões em 2025 e uma Série B de US$ 60 milhões em março de 2026, liderada pelas gestoras de venture capital Lux e Index, com participação de Sequoia, do investidor-anjo Elad Gil, da 01 Advisors e da Bain Capital Ventures. Hoje, mais de 50 advogados na firma usam agentes de IA construídos sobre modelos da OpenAI, Anthropic e Google para acelerar revisão e negociação de contratos.
O episódio simboliza uma mudança de modelo no mercado jurídico: diferente de concorrentes como Harvey e Legora, que vendem tecnologia de IA para bancas tradicionais usarem, a Crosby opera como firma de advocacia de ponta a ponta, construída com IA desde a fundação. Ninguém apontou a inteligência artificial como causa direta da queda da Weil Gotshal, mas o caso reforça que o modelo operacional das bancas de advocacia está sob pressão — e que escritórios centenários agora disputam espaço, talento e dados com startups que nem existiam há três anos.