
Startup de ex-engenheiros da SpaceX quer movimentar naves com água
A Argo Space, fundada por três irmãos que trabalharam na SpaceX, aposta em propulsão a água para criar uma rede de transporte no espaço sem depender de combustível lançado da Terra. A empresa já soma contratos com a Força Aérea dos EUA, a Nasa e a ispace-U.S.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine reabastecer um veículo em órbita usando a mesma água que, em teoria, pode ser extraída do solo lunar — sem precisar lançar nenhum grama extra de combustível da Terra. É essa a aposta da Argo Space, startup americana fundada pelos irmãos Robert, Ryan e Kirby Carlisle, todos ex-engenheiros da SpaceX que saíram da empresa no fim de 2022 para construir infraestrutura de transporte espacial.
O que está confirmado
A Argo Space não constrói foguetes — ela constrói espaçonaves. O produto central é o Argonaut, um veículo de logística in-space pensado para ser reutilizável desde o primeiro voo, usando água como propelente. A escolha por água não é estética: ela é fácil de armazenar, segura de manusear em operações de lançamento e, principalmente, pode ser encontrada em diversos pontos do Sistema Solar, incluindo depósitos no solo lunar.
No mundo real, isso já virou contrato. A Argo Space foi selecionada pela SpaceWERX, braço de inovação da Força Aérea americana dedicado a financiar tecnologia espacial de startups, para um contrato de 1,7 milhão de dólares voltado ao desenvolvimento do Argonaut. A empresa também recebeu um contrato de Fase I da Nasa para avançar veículos de transporte reutilizável, e fechou acordo com a ispace-U.S., braço americana de uma empresa japonesa de exploração lunar, para levar o satélite lunar Alpine à órbita da Lua, com lançamento previsto a partir de 2027, usando o Argonaut como veículo de logística.
Em termos de capital, a startup levantou cerca de 12 milhões de dólares, somando uma rodada inicial de 2 milhões liderada pela Type 1 Ventures em 2023 — com participação de Boost VC, Earthrise Ventures e Stellar Ventures — e uma rodada Série A fechada em outubro de 2024.
O que é aposta, não garantia
A tese central da empresa — que a água pode ser extraída e processada como propelente diretamente no espaço, inclusive a partir de regolito lunar — ainda é, na prática, hipótese de engenharia em fase de validação. Uma missão de demonstração em escala reduzida estava planejada, mas a extração de água lunar em volume comercial e a cadeia completa de reabastecimento orbital ainda não foram comprovadas em operação real.
Se funcionar como prometido, o modelo pode desacoplar o custo de mover massa em órbita do preço do lançamento — hoje o maior gargalo econômico da indústria espacial. Mas isso depende de etapas que a própria empresa ainda não executou publicamente.