
Startup dos EUA testa reator de fusão nuclear do tamanho de uma mesa
A Cambridge Heavy Industries saiu da toca com um reator de fusão a laser que cabe em uma bancada de laboratório. A promessa de curto prazo não é gerar energia, mas produzir trítio — combustível raro e caríssimo que pode faltar nas usinas do futuro.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Esqueça aquelas instalações de fusão do tamanho de um estádio, com salas cheias de lasers industriais. O dispositivo que a Cambridge Heavy Industries vem construindo em segredo cabe literalmente em uma bancada de laboratório — do tamanho de uma mesa de escritório grande. É confirmado: a startup, sediada em Cambridge, Massachusetts, perto do MIT, revelou o projeto em entrevista exclusiva ao TechCrunch.
O que é confirmado
Foto: reprodução/tokenpost.com
A Cambridge Heavy Industries, startup fundada por Yun Kai, atualmente CEO da empresa, desenvolve um reator de fusão por confinamento inercial a laser — a mesma família de tecnologia usada em experimentos recordistas que provaram ser possível extrair mais energia de uma reação de fusão do que a investida para provocá-la. A diferença, segundo a empresa, está na engenharia: o sistema usa apenas dois lasers principais, sendo que um deles é dividido em múltiplas linhas de feixe entregues em anéis concêntricos. Esses anéis atingem o alvo de combustível em sequência, de fora para dentro, comprimindo-o com pressões altas a partir de uma potência relativamente baixa.
Segundo Kai, o tamanho reduzido é proposital: “We purposely built a small modular reactor. It's tiny, it's benchtop. Because it's small, makes everything easier” — ou seja, construíram um reator modular pequeno de propósito, porque isso simplifica tudo. Essa escala também permite rodar entre 50 e 80 experimentos (“shots”) por dia, com os dados alimentando simulações que usam inteligência artificial para otimizar o design do reator.
A empresa levantou uma rodada seed de US$ 6,2 milhões, liderada pela gestora de capital de risco Azolla Ventures, com participação de Overlay, Neta Foundation, P3A, MassCEC e da família Rothrock.
O que é hipótese (ou plano de longo prazo)
Gerar eletricidade em escala comercial não é o objetivo imediato. O plano declarado pela empresa é usar o equipamento de bancada para produzir trítio — isótopo raro do hidrogênio essencial para quase todas as usinas de fusão em desenvolvimento hoje, vendido a cerca de US$ 30 mil o grama. Estudos citados pela reportagem apontam que o mundo pode enfrentar um déficit de cerca de 28 kg de trítio até 2054, o que tornaria essa produção um negócio lucrativo antes mesmo de qualquer usina entrar em operação.
A construção de uma usina de fusão de verdade — do tamanho de duas quadras de basquete, segundo a própria empresa — é projetada para a próxima década. Até lá, é aposta, não fato consumado.
Por que importa
O setor de fusão nuclear tem corrido para reduzir custo e escala de experimentos. Se a abordagem da Cambridge Heavy realmente permitir dezenas de testes por dia a um custo menor, isso pode acelerar a curva de aprendizado de toda a indústria — mesmo que a usina comercial continue sendo promessa de longo prazo.