
Startup levanta US$ 8 milhões para rodar IA em satélites e desafiar a SpaceX
A Satlyt quer ser o Android da computação orbital, com software aberto que roda em satélites de várias empresas, em contraste com o modelo fechado da SpaceX.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
Os US$ 8 milhões que importam
A Satlyt, startup de software espacial, acaba de levantar uma rodada seed de US$ 8 milhões para expandir uma tese ambiciosa: rodar modelos de inteligência artificial diretamente a bordo de satélites, processando dados em órbita em vez de depender do envio bruto de informações para a Terra. A rodada foi liderada pela Non Sibi Ventures, gestora de Houston, e teve participação do ex-astronauta da NASA Bernard Harris.
A empresa foi fundada por Rama Afullo, engenheiro que passou pela computação em nuvem do Google e teve uma passagem breve, em 2024, pela SpaceX, dentro da área de comunicações por satélite Starlink. É justamente da ex-empregadora que vem a comparação central do discurso de Afullo: se eles são o iPhone, vamos construir o Android, disse o fundador à TechCrunch, posicionando a Satlyt como alternativa aberta e horizontal à abordagem fechada da SpaceX, dona da rede Starlink.
Quem ganha e quem perde
O modelo da SpaceX é verticalizado: hardware, software e rede de satélites controlados por uma única empresa. A Satlyt aposta no caminho oposto — um software que funciona em satélites de diferentes fabricantes, permitindo que qualquer operadora rode IA em órbita sem depender de um ecossistema fechado. Se a tese funcionar, quem ganha são as empresas menores de satélites, que passam a ter acesso a processamento de IA sem precisar construir sua própria infraestrutura. Quem perde terreno, ao menos na narrativa da startup, é a SpaceX, cujo modelo integrado perderia espaço para um padrão aberto.
A Satlyt já testou a tecnologia em duas missões de demonstração. Em uma delas, a bordo de um satélite operado pela Momentus, empresa de serviços e infraestrutura espacial, a startup rodou o modelo de IA Gemma, do Google DeepMind, e conseguiu reduzir em mais de 60% o volume de transmissões usadas para relatar erros de software do equipamento — um ganho direto de eficiência em um recurso caro, que é a largura de banda entre o satélite e a Terra.
Entre os parceiros e nomes citados no entorno do projeto estão ainda a NASA, a Stellerian, empresa voltada a vigilância espacial, e a TakeMe2Space, fornecedora de hardware de computação para satélites. A meta declarada da Satlyt é ambiciosa: estar presente em 20% dos satélites em operação até 2030, consolidando-se como camada de software padrão para IA em órbita — um papel equivalente ao que o Android ocupa hoje nos smartphones.