
Startup quer extrair da água do mar 50 mil anos de combustível nuclear
A Fluxnium desenvolveu fibras poliméricas capazes de capturar urânio dissolvido no oceano e já levantou US$ 7 milhões em rodada seed. A promessa de abundância energética ainda depende de escala industrial comprovada.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: quanto é 50 mil anos de combustível?
Se a humanidade começasse a usar hoje apenas o urânio dissolvido na água do mar, teria reservas para cerca de 50 mil anos — um período mais longo que toda a história da agricultura, segundo estimativa citada pela startup americana Fluxnium. O oceano guarda, segundo a empresa, mais de 4 bilhões de toneladas de urânio dissolvido, uma quantidade que o fundador e CEO Jeff Green descreve como "mil vezes mais do que todas as minas identificadas combinadas", em entrevista ao TechCrunch.
A Fluxnium é uma clean tech americana que desenvolve fibras poliméricas para capturar urânio diretamente da água do mar, com tecnologia licenciada do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE).
Como funciona a tecnologia — o que já foi testado
Segundo o relato ao TechCrunch, o processo funciona de forma parecida com o cultivo de algas: longas fibras trançadas são penduradas em boias e deixadas no oceano por 30 a 60 dias, tempo em que absorvem o urânio dissolvido na água. Depois, são recolhidas, e o metal é extraído sem gerar rejeitos tóxicos — cada linha de fibra pode ser reaproveitada várias vezes. O material extraído é purificado até virar yellowcake, a forma concentrada de urânio vendida à indústria nuclear.
Um entrave histórico dessa tecnologia era o custo: testes iniciais chegavam a mais de US$ 200 por libra, inviável frente aos preços de mercado. A Fluxnium afirma ter reduzido esse custo ao aumentar a área de superfície das fibras, o que permite capturar mais urânio por ciclo — mas a empresa não divulgou o valor atual por libra.
O que é fato e o que é aposta
Já é confirmado: a rodada seed de US$ 7 milhões, liderada pela Congruent Ventures e com participação da Active Impact Investments e da Constellation Energy — maior operadora de reatores nucleares dos Estados Unidos. Também é fato que a tecnologia de base foi licenciada do DOE, e que a startup é comandada por Green, empresário por trás de projetos anteriores como a dessalinizadora NanoH2O e a captura de carbono 1PointFive.
Já o impacto real da tecnologia em escala industrial ainda é promessa. A empresa aposta na tese de que faltará urânio: os preços do yellowcake subiram 75% em cinco anos, os EUA planejam triplicar a capacidade nuclear até 2050, e boa parte do urânio ocidental hoje vem de países com risco geopolítico, como Cazaquistão, Rússia, Níger e China. "Se a demanda vier como está sendo projetada, estruturalmente nos falta urânio", disse Green ao TechCrunch. Resta saber se a extração oceânica sairá do estágio piloto para produção em volume competitivo.