
Startup quer usar IA para projetar chips e destravar crise de computação
A Ricursive Intelligence, fundada pelas cientistas que criaram o AlphaChip do Google, levantou US$ 335 milhões em quatro meses e já vale US$ 4 bilhões. A aposta é deixar a inteligência artificial desenhar chips inteiros para dar conta de uma demanda por computação que pode crescer 10 mil vezes em cinco anos.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
10.000 vezes. É esse o múltiplo de crescimento na demanda por poder computacional que a cofundadora Anna Goldie prevê para os próximos cinco anos — e é esse número que justifica, segundo ela, a aposta de US$ 4 bilhões na Ricursive Intelligence, startup de inteligência artificial que promete acelerar radicalmente o projeto de chips. A empresa, criada por Goldie e Azalia Mirhoseini, ex-pesquisadoras do Google DeepMind que desenvolveram o sistema AlphaChip usado para desenhar os processadores TPU do próprio Google, levantou US$ 335 milhões em apenas quatro meses, numa das trajetórias mais rápidas até o status de unicórnio no Vale do Silício.
Eficiência em vez de mais data centers
A tese central da Ricursive Intelligence não é construir exponencialmente mais data centers para sustentar o apetite da IA por computação — é tornar cada chip mais eficiente. O sistema de IA da empresa projeta circuitos inteiros de uma só vez, em vez de dividir o trabalho bloco por bloco como fazem os engenheiros humanos tradicionalmente. O resultado são desenhos que surpreenderam a própria equipe: layouts circulares, em formato de "rosquinha", e padrões ondulados que nenhum humano teria desenhado — mas que funcionam melhor.
Foto: reprodução/techcrunch.com
De anos para uma semana
O ganho mais concreto está no tempo: processos de design de chip que levavam anos caem para cerca de uma semana, segundo a empresa. Isso muda a equação econômica de quem pode se dar ao luxo de desenvolver um chip sob medida — hoje restrito a poucas gigantes com bilhões para investir. Com desenho mais rápido e barato, a promessa é abrir a porta para chips especializados voltados a aplicações como exploração espacial, realidade aumentada e computação biológica, nichos que hoje não justificam o investimento em silício customizado.
Quem ganha e quem fica de fora
Quem ganha com a tese da Ricursive são as big techs que já apostam pesado em IA e sofrem com o estrangulamento de capacidade computacional — a lista de investidores inclui a própria Nvidia, por meio de seu braço de venture capital, além de Lightspeed, DST Global, Felicis Ventures e Sequoia Capital. Quem corre risco de ficar atrás são as empresas de design de chip que ainda dependem do processo manual tradicional, mais lento e caro. Goldie resume a divisão de trabalho que a empresa vende ao mercado: humanos trazem as ideias criativas, a execução fica com a IA. A pergunta que o mercado ainda não respondeu é se layouts gerados por máquina vão sustentar a confiabilidade que a indústria de semicondutores exige em escala industrial.