
Startup usa IA de borda para afastar animais de trens e aeroportos
A sueca Flox Intelligence já tem cerca de 150 dispositivos em aeroportos, ferrovias e estradas que identificam espécies e emitem sons específicos para evitar colisões — e agora busca US$ 10 milhões em Series A para crescer.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Quando a infraestrutura crítica precisa conversar com a natureza
Trilhos de trem, cercas de aeroporto e acostamentos de estrada são projetados para máquinas e pessoas, não para animais. O resultado são colisões que custam vidas, atrasos e prejuízo. A startup sueca Flox Intelligence, criada em 2020 como spin-off de pesquisa em IA do KTH Royal Institute of Technology, em Estocolmo, aposta em dispositivos de borda — ou edge, computadores pequenos que processam dados localmente, sem depender da nuvem — para resolver esse atrito entre cidade e vida selvagem.
Como funciona o sistema
Foto: reprodução/eu-startups.com
O produto principal, batizado Flox Edge, é um dispositivo alimentado por bateria que usa sensores de movimento para acionar câmeras, identifica a espécie do animal com modelos de IA processados localmente e emite sons específicos para cada espécie, imitando predadores ou alarmes, para afastá-lo da área de risco. Segundo a fundadora e CEO, Sara Nožková, que passou 13 anos atuando com transporte e veículos autônomos antes de fundar a empresa, o desafio é que “são máquinas brilhantes em ambientes que engenhamos, mas cegas na natureza complexa e viva”. Um diferencial técnico importante: o sistema varia as respostas para evitar que os animais se habituem ao estímulo e voltem a ignorá-lo, problema clássico de métodos tradicionais de dispersão de fauna.
Onde já está em uso
A companhia tem hoje cerca de 150 dispositivos implantados em aeroportos, corredores ferroviários e rodoviários, parques nacionais, terras agrícolas e sítios de mineração. Entre os parceiros estão o Departamento de Agricultura dos EUA, o aeroporto Gerald R. Ford International, a ONG WWF e a fabricante de trens Alstom, que atua como parceira OEM da tecnologia.
Dinheiro e escala: quem está pagando essa conta
A Flox Intelligence já captou cerca de US$ 5 milhões entre rodadas pré-seed e seed, com a rodada seed liderada pelas gestoras Unconventional Ventures e Tilia Impact Ventures. Agora a empresa abre uma rodada Series A de US$ 10 milhões, que deve ser usada para sair de 150 para alguns milhares de dispositivos instalados, inclusive expandindo para a América do Norte, e para levar o sistema além do uso original com fauna.
Por que isso interessa para quem pensa em cidades
O caso da Flox levanta uma questão que vale para qualquer gestor de infraestrutura crítica, inclusive no Brasil, onde atropelamentos de animais em rodovias e ferrovias também são um problema recorrente: quanto custa evitar um acidente com tecnologia de borda, comparado ao custo de limpar os estragos depois que ele aconteceu? E quem, de fato, fiscaliza se essas soluções funcionam no longo prazo, sem apenas empurrar o problema para outro ponto da linha.