
Suno troca modelos de IA por versão treinada só com música licenciada
Sob pressão de processos de gravadoras, a Suno lança o Suno v6, treinado apenas com dados licenciados da Warner, BMG e Believe, e vai aposentar os modelos anteriores. Universal e Sony seguem no litígio.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
Troca de modelo sob pressão judicial
A Suno, startup que gera músicas completas a partir de comandos de texto usando inteligência artificial, anunciou a substituição de seus modelos por uma nova família, o Suno v6, treinada exclusivamente com dados licenciados de gravadoras e distribuidoras como Warner Music Group, BMG e Believe. Segundo a empresa, "o Suno v6 não foi treinado usando os dados que usou para treinar versões anteriores", e os modelos antigos serão descontinuados. A mudança chega enquanto a companhia enfrenta uma pilha de processos por violação de direitos autorais que já dura mais de um ano.
Uma retirada estratégica, não voluntária
Foto: reprodução/musicbusinessworldwide.com
O pivô não nasceu de boa vontade. O acordo de licenciamento com a Warner Music Group, fechado em novembro de 2025 para encerrar a ação movida pela gravadora, já previa como condição que a Suno lançasse modelos mais avançados baseados em música licenciada e aposentasse os antigos. A BMG fechou parceria semelhante em agosto de 2026. Ou seja: o Suno v6 é, em boa parte, cláusula de acordo judicial travestida de lançamento de produto.
O problema é que nem todo mundo assinou a paz. Universal Music Group e Sony Music mantêm processos ativos contra a Suno por "infração massiva de direitos autorais", e a empresa já admitiu ter obtido áudio do YouTube para treinar seus sistemas — uma prática que as duas gravadoras tentam transformar em acusação adicional de "stream ripping", ou contorno das proteções anti-download da plataforma. O cantor Jason Isbell também processa a empresa individualmente, e há ainda uma ação coletiva de usuários por suposta negligência em um vazamento de dados.
Quem ganha, quem perde
O tabuleiro está claro. Warner e BMG saem na frente: transformaram ameaça de processo em fonte de receita, com contratos de licenciamento e um novo programa que permite a artistas optarem por participar de remixes gerados por IA — o CPO da Suno, Jack Brody, descreveu o objetivo como criar "fluxos de receita adicionais" para donos de direitos e artistas. Universal e Sony, por sua vez, usam justamente esses acordos como munição: argumentam que a existência de um mercado de licenciamento prova que a Suno deveria ter pago desde o início, em vez de treinar seus modelos com material não autorizado.
Já a Suno perde autonomia técnica e paga um preço alto por ter construído sua tecnologia em cima de dados de proveniência duvidosa. A empresa agora precisa operar sob as regras dos grandes catálogos musicais — justamente o modelo de negócio que tentou evitar ao treinar suas primeiras versões sem licenças. O caso reforça um padrão que já apareceu com a concorrente Udio: diante de processos bilionários em potencial, negociar licenciamento com as gravadoras deixou de ser opção e virou condição de sobrevivência para empresas de música gerada por IA.
Atualização (10/09, 04:02): A Suno detalhou o que muda na prática com a chegada da nova geração de modelos, batizada de v6, disponível em três versões: v6 (padrão), v6-wild (resultados mais experimentais e imprevisíveis) e v6-mini (gratuita e com menos recursos). Segundo a empresa, o novo conjunto foi treinado do zero com dados diferentes dos usados nos modelos anteriores, incluindo material licenciado da Warner Music Group, da BMG e da distribuidora Believe. Entre os avanços apontados estão maior fidelidade ao interpretar gêneros musicais mais específicos, como hyperpop e krautrock — estilos que versões anteriores frequentemente erravam —, além de novos recursos de edição, como alterar trechos específicos de uma faixa por comando em linguagem natural e gerar músicas a partir de imagens, vídeos ou áudio.
Apesar dos ganhos de controle, testes indicam que o v6 ainda tem dificuldade em reproduzir de forma proposital as chamadas "imperfeições naturais" da música feita por humanos: mesmo quando solicitado a gerar vocais desafinados, dissonâncias ou faixas sem bateria, o modelo tende a entregar resultados harmônicos e ritmicamente precisos demais. A atualização faz parte do acordo firmado pela Suno com a indústria fonográfica, que prevê a aposentadoria dos modelos antigos da plataforma.