
"Tempestades de calor" já cobrem quase todo o planeta, mostra estudo
Fenômeno batizado Vera durou 367 dias e chegou a cobrir 85% da superfície terrestre; frequência saltou de 5 para 102 eventos por ano.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine uma onda de calor tão grande que, no auge, cobre quase um terço de toda a superfície da Terra ao mesmo tempo — e que não dura alguns dias, mas quase um ano inteiro. É o que uma investigação da agência Reuters documentou, batizando o maior episódio já identificado de "Vera": 367 dias, entre 29 de julho de 2023 e 29 de julho de 2024, atingindo no pico 31,3% da superfície do planeta simultaneamente e, ao longo de todo o período, quase 85% do globo em algum momento.
O que está confirmado
O conceito de "tempestade de calor" (heat storm) é definido como uma onda de calor que dura pelo menos cinco dias, fica entre os 10% mais quentes do histórico da região e, no pico, cobre ao menos 1% da superfície terrestre. Pela contagem da Reuters, esses eventos saltaram de cerca de 5 por ano na década de 1960 para 102 por ano na década atual — um salto que os pesquisadores atribuem ao aquecimento global.
Os impactos documentados durante o "Vera" incluem sensação térmica de 53°C nas Filipinas, mais de 1.300 mortes durante a peregrinação do Hajj na Arábia Saudita (51,8°C), um acidente de trânsito na Louisiana com 158 veículos e 7 mortes em meio a 600 focos de incêndio, água a 41°C no Lago Tefé, no Amazonas, que matou mais de 200 botos, e queda de metade da colheita de cacau na Costa do Marfim e em Gana.
O que ainda é hipótese
Batizar ondas de calor como se fossem furacões — com nome próprio — é uma escolha editorial da própria investigação, não uma convenção meteorológica oficial. "É uma forma poderosa de as pessoas entenderem que algo está acontecendo... não fazemos isso hoje com ondas de calor", disse Anthony Leiserowitz, do Yale Program on Climate Change Communication, defendendo a ideia como ferramenta de comunicação, não como classificação científica formal.