
Tempestades solares podem ser bem mais perigosas do que a NASA calculava
Estudo da NASA e da Universidade de Lancaster, publicado na Nature, indica que o método usado há décadas para medir tempestades solares subestimou seu real potencial de dano — e pode não existir um teto físico para o impacto no campo magnético da Terra.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine todo o sistema elétrico de um país inteiro apagando de uma vez, satélites de GPS perdendo a precisão e voos sendo desviados dos polos — tudo por causa de uma explosão que aconteceu a 150 milhões de km daqui. É esse o tipo de cenário que um novo estudo da NASA colocou de volta na mesa, com um agravante: pode ser pior do que os modelos atuais preveem.
O que a pesquisa encontrou
O estudo, liderado por Nithin Sivadas, do Centro Goddard de Voos Espaciais da NASA, em parceria com Maria Walach, da Universidade de Lancaster, foi publicado na revista Nature em julho de 2026. A equipe analisou mais de um milhão de medições do vento solar, coletadas por espaçonaves posicionadas no ponto L1 — um local no espaço a cerca de 1,6 milhão de km da Terra, usado há décadas como referência para monitorar o clima espacial.
Foto: reprodução/gizmodo.com.br
A descoberta central: o que os cientistas interpretavam como um "limite de saturação" — um teto para a intensidade das correntes elétricas geradas por tempestades solares na atmosfera terrestre — pode ser uma ilusão estatística, causada pela forma como os dados são coletados a essa distância, e não um limite físico real. Em outras palavras, o método de medição fez a ciência subestimar a real capacidade do Sol de despejar energia sobre o planeta.
O que é confirmado e o que ainda é hipótese
Foto: reprodução/space.com
É confirmado que o estudo, revisado por pares e publicado na Nature, não encontrou evidência estatística de um teto máximo para a energia transferida do Sol para a alta atmosfera da Terra durante tempestades geomagnéticas extremas. Também é fato que a análise se baseou em mais de 1 milhão de medições reais de vento solar.
O que ainda é hipótese, ou extrapolação, é o tamanho exato do impacto adicional em cada tipo de infraestrutura — os pesquisadores não cravam um número fixo de "dobro" de dano, mas afirmam que tempestades raras, do tipo "uma vez a cada mil anos", podem gerar consequências bem mais severas do que os modelos atuais preveem.
Por que isso importa
As infraestruturas citadas como vulneráveis incluem redes elétricas, satélites, sistemas de GPS e navegação, comunicações e até a exposição à radiação de astronautas e tripulações de voos em grande altitude. Como o mundo está cada vez mais dependente de satélites e de redes elétricas interligadas, um evento solar extremo — mesmo que raro — tem potencial de causar apagões e falhas em cascata em escala muito maior do que o previsto até agora.