
Sal fundido é usado como arma secreta na corrida por energia de IA
O reator Natrium, de 345 MW, consegue elevar a potência a 500 MW por horas armazenando calor em sal fundido — um trunfo que ajudou a TerraPower a fechar acordo com a Meta para oito plantas.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
Um vat gigante de sódio fundido. É essa a arma secreta que pode colocar a TerraPower, empresa de energia nuclear fundada por Bill Gates, na frente na corrida bilionária por eletricidade para data centers de inteligência artificial.
O problema que ninguém resolvia
Data centers de IA não consomem energia de forma constante: a demanda oscila em picos abruptos, e é aí que a maioria dos reatores nucleares tropeça. Segundo a TechCrunch, as usinas nucleares dos EUA operam hoje com fator de capacidade de 92,5%, mas mudam sua potência devagar — cerca de 5% de variação por minuto nos reatores existentes, e até 10% nos pequenos reatores modulares (SMRs). Para quem opera um data center de IA, isso é lento demais.
A saída: não acelerar o reator, guardar o calor
A TerraPower resolveu o problema de um jeito pouco óbvio: em vez de variar a potência da fissão nuclear, o reator Natrium — de 345 megawatts — mantém a divisão de átomos em ritmo constante e desvia o calor excedente para um reservatório de sódio fundido. Quando a demanda do data center dispara, esse calor armazenado é liberado para gerar vapor extra e girar as turbinas com mais força. Resultado: o sistema consegue elevar a potência para 500 MW por várias horas, sem depender de acelerar ou desacelerar a reação nuclear em si.
É esse "amortecedor térmico" que funciona como diferencial competitivo. Enquanto rivais correm atrás de soluções para acompanhar a demanda oscilante de IA, a TerraPower já embute a flexibilidade no projeto da planta.
Quem já apostou na tecnologia
O mercado prestou atenção. Em janeiro, a Meta fechou acordo para comprar oito plantas Natrium da TerraPower — um dos maiores compromissos já assumidos por uma big tech com energia nuclear dedicada a data centers. A primeira usina da empresa já está em construção em Wyoming, e a Bloomberg apurou que a TerraPower deve anunciar ainda este ano seu primeiro projeto de data center, com início de obras previsto para 2027.
Quem ganha e quem perde
Quem ganha é claro: a TerraPower sai na frente das startups rivais de reatores nucleares que ainda não resolveram o problema da rampa de potência, e a Meta garante fornecimento de energia limpa e flexível para seus data centers de IA. Quem perde, por ora, são os concorrentes que apostam em reatores convencionais ou SMRs sem sistema de armazenamento térmico embutido — eles vão precisar de soluções complementares (baterias, gás) para cobrir os mesmos picos de demanda que a Natrium resolve dentro da própria planta.
A disputa por energia é hoje o principal gargalo da expansão de IA nos EUA, e a TerraPower aposta que física de reator, não só capital, vai decidir quem fecha os próximos contratos com as gigantes de tecnologia.