
Terras raras: o que cada presidenciável propõe para reduzir a dependência tech
Brasil tem 23% das reservas mundiais de terras raras, mas produz menos de 1% da oferta global. Candidatos à Presidência em 2026 divergem sobre como transformar isso em indústria de chips e baterias.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: 23% das reservas, menos de 1% da produção
O Brasil senta sobre 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, a segunda maior reserva do planeta atrás só da China, segundo o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos). Isso equivale a 23% do total global. O problema é que o país extrai menos de 1% da oferta mundial, e a única mina comercial em operação é a Serra Verde, em Minaçu (GO) — que acaba de virar ativo americano. A USA Rare Earth, mineradora dos EUA que lidera a corrida por fornecedores fora da China, concluiu em setembro a compra da Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, consolidando o Brasil como peça central na disputa entre Washington e Pequim por insumos de chips, ímãs e baterias.
Por que isso importa para quem faz tecnologia
Foto: reprodução/poder360.com.br
Terras raras são 17 elementos usados em ímãs de motores elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa. Já os minerais críticos — lítio, níquel, cobre, nióbio — alimentam baterias de veículos elétricos, semicondutores e data centers. A China controla cerca de 90% do refino mundial dessas cadeias, o que torna qualquer fabricante de chips ou de carros elétricos refém de Pequim. Os Estados Unidos despejam bilhões de dólares para abrir fornecedores alternativos, e o Brasil virou alvo direto desse movimento — o que já azedou o debate eleitoral entre discurso de soberania e aproximação com Washington.
O que cada candidato propõe
Lula (PT) amarra o processamento de minerais críticos à política industrial, sob a bandeira da soberania tecnológica, com crédito do BNDES e conteúdo local nacionalizado, defendendo processar terras raras no país tendo China e EUA como parceiros, sem abrir mão de autonomia.
Flávio Bolsonaro (PL) quer conectar a mineração direto a semicondutores, baterias e data centers, com o Estado como regulador — não como empresário — e tapete vermelho para capital estrangeiro.
Renan Santos (Missão) propõe acordos bilaterais com EUA e União Europeia trocando acesso ao minério por transferência de tecnologia, zonas econômicas especiais e uma planta-piloto de refino até 2030, com pacote de R$ 20 bilhões em 10 anos.
Ronaldo Caiado (PSD) aposta em um conjunto de medidas que vai da reestruturação da Agência Nacional de Mineração à instalação de fábricas de ímãs e cátodos de bateria em solo nacional. Romeu Zema (Novo) é o mais enxuto: liberar licenças e deixar a iniciativa privada tocar a exploração.
Quem ganha, quem perde
Se o refino sair do papel, ganham fabricantes de chips e baterias que hoje pagam o preço da concentração chinesa — e estados como Goiás e Minas Gerais, onde estão os principais depósitos. Perde quem aposta só na exportação de minério bruto, modelo que historicamente deixou o maior valor agregado fora do país. A corrida também acende um alerta de soberania: vender ativos estratégicos, como a Serra Verde, a grupos americanos resolve o problema de capital no curto prazo, mas reabre a pergunta sobre quem controla, de fato, a cadeia que viabiliza carros elétricos e semicondutores brasileiros.