
Terremoto de magnitude 8.8 pode ter despertado vulcão após 475 anos
Estudo propõe que o tremor que atingiu Kamchatka em 2025 alterou a pressão em uma câmara de magma e destravou a erupção do vulcão Krasheninnikov, adormecido desde o século 16.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine uma pressão represada por quase cinco séculos — o tempo desde a chegada dos primeiros europeus às Américas — sendo liberada em poucos dias. É essa a hipótese que vulcanologistas tentam confirmar sobre o Krasheninnikov, vulcão na península russa de Kamchatka que ficou 475 anos sem erupções e voltou a expelir cinzas e gás a quase 4 km de altura em agosto de 2025.
O que está confirmado
O gatilho temporal não é disputado: um terremoto de magnitude 8.8 atingiu a costa de Kamchatka em 29 de julho de 2025, e o Krasheninnikov entrou em erupção poucos dias depois, a menos de 240 km do epicentro. A atividade explosiva se estendeu, de forma intermitente, até meados de novembro do mesmo ano. Também é fato registrado por satélite: nos nove anos anteriores ao tremor, o solo sobre o vulcão não inchou — sinal clássico de acúmulo de magma —, e sim afundou lentamente, cerca de 4 mm por ano.
O que ainda é hipótese
A parte em aberto é o mecanismo. Um estudo liderado por James Hickey, vulcanólogo da Universidade de Exeter, no Reino Unido, publicado como preprint na plataforma EarthArXiv e ainda sem revisão por pares, propõe que o tremor prolongado não rompeu diretamente a câmara de magma. Em vez disso, teria favorecido a difusão de gases para dentro de bolhas já presentes no reservatório, fazendo-as crescer e desestabilizando um sistema que, segundo os autores, já estava mecanicamente próximo do limite de ruptura.
Por que isso importa
Se a hipótese se confirmar após revisão por pares, ela reforça um alerta que o Serviço Geológico dos Estados Unidos já fazia: terremotos grandes só destravam vulcões próximos quando estes já acumulam magma sob pressão suficiente, não criam risco vulcânico do zero. Para Kamchatka, região com dezenas de vulcões ativos monitorados por satélite, o caso Krasheninnikov vira estudo de referência sobre como ler sinais de solo que, aparentemente, indicavam calmaria.