
Tesla Semi tem 800 km de autonomia, mas falta tomada na estrada
A Tesla começou a produção em massa do Semi com 500 milhas (800 km) de autonomia, mas a escassez de carregadores de megawatt nas rodovias americanas ameaça travar a eletrificação do transporte de cargas.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O gargalo é a tomada, não o caminhão
O Tesla Semi de longo alcance sai de fábrica prometendo 500 milhas, cerca de 800 quilômetros, com uma única carga. É o número que a Tesla passou nove anos perseguindo desde o anúncio do caminhão elétrico em 2017, e que agora chega junto com uma meta ainda mais ambiciosa: produzir 50 mil unidades por ano em uma fábrica dedicada ao lado da Gigafactory de Nevada, nos Estados Unidos. O problema é que autonomia e capacidade fabril de nada servem sem lugar para recarregar essas baterias de 822 kWh na estrada.
A rede de recarga ultrarrápida para caminhões pesados ainda é escassa nos principais corredores de frete americanos. A Tesla vende o Megacharger, seu carregador de megawatt, a partir de 188 mil dólares por unidade, e afirma estar erguendo estações dedicadas ao longo de rotas estratégicas, mas a cobertura segue irregular. Para transportadoras sem infraestrutura elétrica própria, adaptar um pátio para recarregar frotas pode custar entre 50 mil e mais de 200 mil dólares por depósito, segundo estimativas do setor.
O preço do próprio caminhão também pesa: o Semi custa perto de 300 mil dólares antes de incentivos, quase o dobro de um diesel comparável, que sai por cerca de 165 mil dólares. Somado ao carregador, o pacote completo pode ultrapassar 350 mil dólares.
A conta que pode virar o jogo
Apesar do investimento inicial alto, a eletricidade sai mais barata que o diesel na comparação por milha rodada: entre 15 e 30 centavos de dólar contra 50 a 80 centavos do combustível fóssil, que voltou a subir de preço nos Estados Unidos. Em uma frota que roda 200 mil milhas por ano, a economia em combustível pode chegar a 72 mil dólares por caminhão. É essa equação que já convenceu clientes como PepsiCo, DHL, a transportadora ArcBest, a sueca Einride, especializada em transporte elétrico e autônomo, e a IMC Logistics, distribuidora de commodities agrícolas, a colocar Semis na frota.
Quem ganha e quem perde na corrida
Os grandes embarcadores com escala para negociar contratos de energia e construir sua própria infraestrutura de recarga saem na frente, assim como fabricantes de baterias e a própria Tesla, que aposta em verticalizar a venda de carregadores junto com os caminhões. Do outro lado, transportadoras menores, sem capital para investir em pátios elétricos, correm o risco de ficar de fora da transição, ou dependentes de redes de terceiros ainda incompletas. Caminhões pesados respondem por 16% das emissões do transporte nos Estados Unidos, mesmo sendo apenas 1% da frota, o que explica a pressão regulatória e comercial para acelerar a eletrificação. Mas, sem tomada suficiente na estrada, a promessa de 800 km de autonomia do Semi ainda esbarra na realidade do asfalto.