
Testei o Muse, o agente de IA da Meta, e ele me deixou desconfortável
A Meta lançou o Muse, agente de IA que compra, agenda e manda e-mail por você. Testes internos da própria empresa já encontraram falhas de privacidade antes do lançamento.
Por Marina Sato · Repórter de IA
Um agente, três planos, um problema
A Meta lançou o Muse em 8 de setembro. É a aposta mais séria da empresa em um agente de IA que age por conta própria, não só responde perguntas. Ele manda e-mail, agenda compromissos, compra ingresso, preenche formulário, faz compra online. A promessa oficial: tirar o trabalho braçal de cima do usuário.
São três planos. Um gratuito com limite semanal de uso, um Power a US$ 20 por mês, um Maximum a US$ 100. Está disponível nos Estados Unidos, em iOS, Android, no site muse.ai e dentro do WhatsApp. Óculos de IA da Meta entram na lista em breve.
Como funciona por baixo
O agente roda dentro de uma máquina virtual isolada, a Muse Secure VM, com um segundo agente, batizado de Sentinel, controlando o acesso à internet e pedindo aprovação antes de ações sensíveis, como gastar dinheiro ou mandar mensagem em nome do usuário. A Meta diz que senhas não ficam visíveis ao Muse e que os dados do agente não se misturam com o sistema de anúncios.
Na prática, é isso que faz o Muse funcionar: acesso a e-mail, calendário, pagamento, compras, tudo conectado. E é exatamente esse acesso que preocupa.
O que os próprios funcionários encontraram
Antes do lançamento, testes internos da Meta já tinham identificado falhas. Um dos casos: ao pedir para o Muse identificar brinquedos em fotos de aniversário infantil, o agente driblou uma trava de segurança e expôs fotos privadas guardadas no iCloud. Outro funcionário relatou desconexões no meio de tarefas, sem explicação, ao usar o Muse para monitorar ingressos e produtos de venda rápida.
A Meta já esteve aqui antes. A empresa acumula histórico de embates com reguladores sobre privacidade, incluindo uma multa bilionária da FTC americana em 2019. Prometer isolamento técnico é uma coisa. Provar que ele resiste ao uso real é outra.
O que falta responder
A Meta corrigiu as falhas encontradas nos testes internos antes de liberar o Muse ao público? Ela não detalhou. Quantos usuários já ativaram o agente na primeira semana? Também não há número público. Até a empresa responder isso, o desconforto de entregar e-mail, calendário e cartão de pagamento a um agente que já vazou fotos íntimas em teste interno continua sem resposta.
Atualização (10/09, 21:48): O Muse, agente de IA da Meta testado anteriormente pela nossa equipe, subiu ao 2º lugar entre os apps mais baixados da App Store nos Estados Unidos, segundo dados da Sensor Tower. O app acumulou mais de 83 mil downloads no iOS, mas no Android o desempenho é bem mais modesto: ocupa apenas a 338ª posição na categoria Produtividade do Google Play.
A comparação com outros lançamentos da própria Meta ajuda a dimensionar o resultado: o Threads somou 4,3 milhões de downloads em seu primeiro dia, enquanto o Meta AI teve 108 mil instalações em sua estreia. Ainda assim, o ritmo do Muse ficou atrás do ChatGPT, que atingiu meio milhão de instalações em menos de uma semana. O lançamento também ocorreu poucos dias depois de a Meta fechar um acordo de US$ 18 bilhões em processos sobre danos causados por suas redes sociais, o que pode ter afetado a adoção inicial do agente.
Atualização (11/09, 15:59): Após o lançamento do Muse, agente pessoal de inteligência artificial da Meta, a banda de rock britânica Muse perdeu o handle @muse que usava há anos no Instagram e no X (antigo Twitter). O grupo agora aparece nessas redes como @museband. Fãs notaram a mudança de nome ainda antes do anúncio oficial do produto da Meta, em 9 de setembro, o que gerou especulação sobre um possível acordo prévio entre a empresa e a banda — mas as circunstâncias exatas da troca não foram esclarecidas publicamente, e nem a Meta nem representantes do Muse confirmaram se houve negociação, compra do identificador ou outro tipo de acerto.
O episódio repercutiu nas redes como um caso irônico, já que boa parte do repertório do Muse trata de temores relacionados à tecnologia e à vigilância digital. Não é a primeira vez que a Meta fica associada à apropriação de nomes de usuário cobiçados: a empresa já havia herdado o @meta de uma revista de motociclismo e o @threads de uma marca de moda.