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Ciência22 de set. de 2026, 09:55

Testes nucleares da Coreia do Norte podem ter causado 1.399 terremotos

Estudo publicado na revista Science mapeou 17 anos de dados sísmicos no Monte Mantap e encontrou quase 1.400 abalos após os testes nucleares norte-coreanos — e a atividade, em vez de diminuir, cresceu até 2025.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Imagine cutucar uma rocha já rachada e, em vez de ela parar de tremer depois do impacto, ela continuar tremendo — cada vez mais forte — quase duas décadas depois. É mais ou menos isso que um grupo de cientistas encontrou embaixo do Monte Mantap, na Coreia do Norte, local dos seis testes nucleares subterrâneos do regime entre 2006 e 2017.

O que foi confirmado pelo estudo

Foto: reprodução/phys.org

Uma equipe internacional liderada por Xingli Fan, da Chengdu University of Technology (universidade chinesa com forte tradição em geologia e engenharia geotécnica), analisou 17 anos de dados sísmicos contínuos, de 2008 a 2025, coletados por estações de monitoramento na China e na Coreia do Sul, entre 80 km e 200 km do local dos testes. O resultado, publicado na revista científica Science, identificou 1.399 terremotos locais na região — para 955 deles foi possível determinar a localização com precisão.

A maioria dos abalos foi de magnitude abaixo de 2, portanto imperceptíveis para quem vive na região. Mas o dado que chamou atenção dos pesquisadores não foi a intensidade, e sim o comportamento ao longo do tempo: em vez de a atividade sísmica diminuir depois do último teste, em 2017, ela aumentou até 2025, assim como a energia sísmica total liberada pela sequência de abalos.

Os terremotos se concentraram em duas linhas praticamente paralelas, orientadas na direção norte-noroeste. Uma delas coincide com a extensão projetada de uma falha geológica já mapeada ao sul do Monte Mantap décadas atrás; a outra não tem nenhum traço conhecido na superfície.

O que ainda é hipótese

O artigo descreve a sequência de Mantap como evidência de que explosões nucleares subterrâneas podem produzir efeitos duradouros na crosta terrestre em ambientes geologicamente heterogêneos e sob tensão crítica — ou seja, os testes teriam reativado falhas que já estavam sob estresse, e não necessariamente criado uma ameaça sísmica nova do zero. O que ainda não está estabelecido é até quando essa atividade vai continuar ou se ela pode evoluir para abalos maiores.

Por que isso importa

Além do interesse geológico, a persistência dos tremores complica o monitoramento sob o Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares (CTBT, na sigla em inglês): fica mais difícil separar o que é eco tardio de explosões antigas do que é atividade sísmica natural — um desafio direto para quem tenta fiscalizar programas nucleares a partir de dados sísmicos.

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