
TI sem poder de barganha: empresas jogam fora 28% do orçamento de software
Pesquisa com 2.018 chefes de TI mostra que grandes empresas pagam por upgrades que seu próprio departamento técnico acredita que vão piorar desempenho, confiabilidade ou valor do negócio. O motivo: falta de poder de negociação diante dos fornecedores.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
28% do orçamento de software vai para o que ninguém pediu
Grandes empresas nos Estados Unidos e no Reino Unido destinam, em média, 28% do orçamento de software a atualizações, migrações e mudanças de licenciamento que não escolheriam se pudessem. É o principal número de uma pesquisa com 2.018 CIOs e diretores de TI sênior, conduzida pelo instituto Censuswide entre 11 e 19 de maio de 2026 a pedido da Origina — empresa de suporte independente para software corporativo, reconhecida pela consultoria Gartner desde 2019 e que atende mais de 200 grandes empresas em plataformas como IBM, HCL, VMware e SAP. O estudo, batizado de "The Software Tax", foi publicado em parceria com a rede de pensadores de gestão Thinkers50 e ouviu executivos de empresas com faturamento acima de US$ 1 bilhão ou mais de 10 mil funcionários, divididos entre EUA (1.011) e Reino Unido (1.007).
O problema é falta de leverage
O dado mais revelador não é o desperdício em si, mas a razão por trás dele: 95% dos entrevistados afirmaram ter pago, nos últimos três anos, por ao menos uma mudança imposta por fornecedor que eles próprios acreditavam que reduziria performance, confiabilidade ou valor para o negócio. Mesmo sabendo que a decisão era ruim, 78% disseram que é o fornecedor — não a própria empresa — quem define o momento e os termos dessas mudanças, e 76% admitem ter pouquíssimo poder de negociação diante dos grandes fornecedores de software. Para 80%, trocar de fornecedor principal causaria disrupção significativa ao negócio, o que trava qualquer tentativa de resistência.
Quem ganha e quem perde
A conta não é só financeira. A mudança mais recente desse tipo custou, em média, US$ 12,87 milhões por organização. Além disso, 91% das empresas descartaram hardware ainda funcional só para cumprir prazos de suporte dos fornecedores, perdendo em média 1,65 ano de vida útil por equipamento, e 84% afirmam que engenheiros seniores são frequentemente desviados de projetos estratégicos para tocar essas atualizações forçadas. Outro efeito colateral: 90% relataram atraso em iniciativas de dados e inteligência artificial por causa dos custos impostos pelos fornecedores. Do outro lado da mesa, os grandes fornecedores de software são o lado que lucra com ciclos de upgrade que a própria área de TI considera desnecessários ou até prejudiciais. Não à toa, o levantamento mostra apoio quase unânime a algum tipo de freio regulatório: 91% dos entrevistados defendem legislação que dê às empresas proteções parecidas com as de inquilinos de longo prazo, e 82% apoiam regras de manutenção nos moldes do direito a reparo já aplicado a hardware na União Europeia. Enquanto isso não existe, é o orçamento de TI — e a paciência de quem assina o cheque — que continua pagando a conta.