
Trem-bala da Califórnia corre risco de parar
Relatório do inspetor-geral do projeto aponta rombo de US$ 9,5 bilhões nos próximos cinco anos e critica a autoridade do trem-bala por "suposições excessivamente otimistas" sobre receitas futuras.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O inspetor-geral do projeto de trem de alta velocidade da Califórnia(ou 'Trem-Bala', como diriam os brasileiros), Ben Belnap, publicou em 31 de julho um relatório revisando o plano de negócios de 2026 da California High-Speed Rail Authority — e ali continha um alerta é direto: o dinheiro pode acabar já em dezembro de 2027.
Segundo o documento, há um rombo de financiamento de US$ 9,5 bilhões entre os anos fiscais de 2027-28 e 2031-32, e só para manter as obras em ritmo no primeiro desses anos seriam necessários US$ 2,2 bilhões.
É o tipo de pergunta que qualquer cidadão brasileiro acostumado a obras públicas atrasadas reconhece de cor: quanto vai custar de verdade, e quem está de olho nas contas? Nos EUA, quem cumpre esse papel é justamente um inspetor-geral com poder de auditoria sobre o próprio projeto — figura que ainda engatinha em muitos órgãos de infraestrutura brasileiros.
De onde vem o dinheiro (e por que não chega a tempo)
A Califórnia conta com um programa estadual de precificação de carbono, o cap-and-invest, que destina cerca de US$ 1 bilhão por ano ao projeto até 2046. O problema é o ritmo: esse fluxo é lento demais para cobrir os anos de pico de construção.
A saída cogitada pela autoridade é emitir títulos contra receitas futuras — mas aí as estimativas de custo dos dois lados nem se aproximam. A própria autoridade projeta US$ 3,6 bilhões em juros com esse endividamento; o inspetor-geral calcula que a conta pode chegar a US$ 6,6 bilhões.
Soma-se a isso a perda de cerca de US$ 4 bilhões em recursos federais já aprovados, mas cancelados pela administração Trump — dinheiro que a autoridade, segundo o relatório, ainda "permanece otimista" que poderá recuperar no futuro.
A crítica central: otimismo demais, garantia de menos
O trecho mais duro do relatório diz que a autoridade "continua a fazer suposições excessivamente otimistas" e segue presumindo que mudanças legislativas favoráveis ao projeto "ocorrerão quase imediatamente" — sem que isso esteja garantido em lei. Como resposta, a autoridade rebateu que não incluiu "custos de juros especulativos" nem combinou indevidamente despesas financeiras na estimativa de capital.
O impacto prático já apareceu: a autoridade cortou pela metade a encomenda de trens, de seis para três conjuntos, mantendo apenas opção — sem garantia — para mais 19 unidades. O trajeto inicial, entre Bakersfield e Merced, no Vale Central, tem 171 km previstos para entrar em operação até 2032, dentro de um projeto que, desde a estimativa original de US$ 33 bilhões em 2008, já soma US$ 128 bilhões para ligar São Francisco a Los Angeles. Para o contribuinte californiano — e para quem acompanha projetos de trilhos no Brasil —, a pergunta que fica é sempre a mesma: quem paga a conta quando o orçamento não fecha?