
Trump consultou Grok antes da captura de Maduro, diz reportagem da Time
Segundo a Time, o presidente americano passou horas conversando com o chatbot da xAI sobre a reação popular a uma eventual prisão do então presidente venezuelano.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Uma pergunta, duas interpretações
Em bom português: um presidente pediu a opinião de um chatbot sobre como seu povo reagiria à prisão de um líder estrangeiro — e, segundo a reportagem, gostou tanto da resposta que a chamou de "genial". É esse o relato publicado pela revista Time, replicado pelo TechCrunch, sobre uma conversa entre Donald Trump e o Grok, chatbot da xAI, empresa de inteligência artificial de Elon Musk que também controla a rede social X.
Segundo a Time, Trump passou horas conversando com o Grok durante um encontro privado com Musk na Casa Branca, em dezembro de 2025. Na conversa, o presidente perguntou como os venezuelanos reagiriam à captura do então presidente Nicolás Maduro. O chatbot respondeu que Maduro era um "ditador profundamente impopular" e que grande parte da população provavelmente comemoraria sua queda.
O que aconteceu depois
Um mês depois, em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos invadiram a Venezuela e capturaram Maduro, que hoje está preso em Nova York aguardando julgamento por acusações de tráfico de drogas. As comemorações previstas pelo Grok de fato aconteceram, o que — segundo a fonte da reportagem — levou Trump a classificar a resposta do chatbot como "genial".
É importante separar o que a reportagem afirma do que ela não afirma: em nenhum momento fica estabelecido que o Grok recomendou a operação militar ou que sua resposta foi determinante para a decisão de invadir o país. O que existe é o registro de uma consulta sobre reação popular — não um conselho estratégico.
Os dois lados do problema
De um lado, é só um presidente testando uma ferramenta de IA como qualquer usuário faria. Do outro, há um precedente incômodo: decisões de política externa sendo, ainda que informalmente, influenciadas por respostas de um chatbot — sem o escrutínio de analistas, diplomatas ou serviços de inteligência tradicionais. Separadamente, reportagens indicam que a Casa Branca pressionou a GSA, agência de compras do governo americano, para aprovar o Grok como fornecedor oficial. Nem a xAI nem a Casa Branca comentaram o episódio publicamente até a publicação desta matéria.