
Depois de lucro recorde, Uber demite 10% de funcionários; Robôs devem ganhar espaço
A Uber corta 3.300 vagas, o equivalente a 10% do seu quadro mundial, no maior enxugamento da empresa desde a pandemia. A meta é reduzir camadas de gestão e liberar caixa para corrida, entrega e robotáxi.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: 3.300 vagas cortadas
A Uber vai demitir 3.300 pessoas, o equivalente a 10% do seu quadro global de funcionários — o maior corte da empresa desde a pandemia, quando cerca de 3.700 vagas foram eliminadas em 2020. O anúncio foi feito nesta quarta-feira pelo CEO Dara Khosrowshahi em comunicado interno, e mira um alvo específico: camadas de gestão intermediária que, segundo a empresa, se acumularam nos últimos anos de crescimento acelerado.
Onde o corte mais dói
O plano prevê redução de 20% no número de gestores e a eliminação de metade das equipes formadas por apenas uma ou duas pessoas. Também serão demitidos funcionários posicionados a mais de sete camadas de distância do CEO no organograma — um recado direto contra a burocracia interna. A Uber também vai unificar as áreas de engenharia, ciência de dados e entrega num só bloco, integrar as operações de delivery de restaurantes, varejo e entregas diretas, e encerrar o regime remoto quase por completo: menos de 1% do time poderá continuar trabalhando fora do escritório.
Por que agora
A empresa vem de resultados financeiros sólidos — receita de US$ 14,19 bilhões e lucro líquido de US$ 2,39 bilhões no segundo trimestre de 2026, mais que o dobro do lucro do mesmo período do ano anterior — o que reforça que o corte não é uma resposta a crise financeira, e sim uma decisão de realocar capital. Segundo Khosrowshahi, as mudanças "têm dois objetivos: tornar a Uber mais simples e rápida, e criar mais capacidade para investir em nosso futuro". Esse futuro tem nome: a empresa já comprometeu mais de US$ 10 bilhões em veículos autônomos, com meta de colocar até 50 mil robotáxis totalmente autônomos rodando em 28 cidades até 2028.
Quem ganha e quem perde
Quem perde é óbvio: os 3.300 profissionais demitidos, concentrados em funções de gestão intermediária e em times fragmentados que a empresa considera redundantes, principalmente em escritórios de São Francisco e Nova York. Quem ganha, ao menos no discurso da empresa, são acionistas e a própria estratégia de longo prazo: menos camadas de decisão, mais dinheiro livre para a corrida do robotáxi, setor em que a Uber compete com Waymo e outras apostas de olho em substituir motoristas humanos. Resta ver se a promessa de "simplicidade" realmente destrava execução mais rápida, ou se é só o eufemismo mais recente para um corte de custos clássico com um pretexto tecnológico.