
Ucrânia aprende a lutar sem Starlink enquanto Musk usa satélites como arma política
Depois que terminais militares do Starshield passaram a cortar conexão em alta velocidade, a Ucrânia acelerou a busca por alternativas de comunicação para seus drones. Fabricantes locais já testam rádio, fibra óptica e sistemas próprios para depender menos da boa vontade de Elon Musk.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Uma dependência que virou vulnerabilidade
Imagine uma força militar inteira — radares, drones de ataque, interceptores antiaéreos, logística de linha de frente — correndo sobre uma única rede de satélites controlada por um bilionário que também negocia política com a Casa Branca. É essa a escala da dependência que a Ucrânia vem tentando desmontar, depois que terminais do Starshield, a versão militar do Starlink operada pela SpaceX, passaram a perder conexão acima de certas velocidades no meio de operações de combate.
O que está confirmado
Foto: reprodução/fortune.com
Segundo o Kyiv Independent e a Fortune, uma restrição não anunciada entrou em vigor na madrugada de 13 para 14 de outubro de 2026, cortando o sinal de terminais Starshield em velocidades entre 72 km/h e 161 km/h — na prática, um teto de cerca de 160 km/h. O Tom's Hardware e o site especializado Satnews confirmaram que a mudança afetou diretamente drones de ataque de médio alcance e interceptores usados contra os drones Shahed russos, forçando unidades ucranianas a cancelar missões.
Até 23 de outubro, segundo a Kyiv Independent, as instabilidades de conexão em altas velocidades ainda eram relatadas, mesmo após o presidente americano Donald Trump afirmar publicamente que Elon Musk havia restaurado o serviço. A Reuters, citada por diversos veículos, apurou que dois funcionários americanos e uma fonte ocidental atribuíram a ordem de limitar o Starshield à Casa Branca, não à SpaceX isoladamente — versão que Musk usou para devolver a responsabilidade ao Pentágono e à Presidência.
Foto: reprodução/tomshardware.com
O que é especulação
Oficiais ucranianos, segundo a Axios, suspeitam que a restrição teria sido uma forma de pressionar Kiev a aceitar a exigência de Trump de não atacar refinarias de petróleo russas — mas essa motivação não foi confirmada oficialmente por SpaceX, Casa Branca ou pelo governo ucraniano.
A resposta técnica ucraniana
Para reduzir a exposição a decisões unilaterais sobre o Starlink, a fabricante ucraniana de drones Wild Hornets, conhecida por seus interceptores contra Shahed, confirmou à TWZ e ao Kyiv Post que está reavaliando a dependência do sistema e testando alternativas de guiamento e controle sem satélite, incluindo comunicação digital proprietária e transmissão de vídeo reforçada. O país também assinou carta de intenções com a finlandesa Nokia e a ICEYE para desenvolver capacidade própria de comunicação por satélite, segundo noticiou o site português Eco. Entre as opções já em uso na linha de frente estão rádio, fibra óptica e internet móvel — nenhuma delas, porém, substitui plenamente o Starlink em alcance e capacidade.